Quem já comprou um etrog sabe como é. Vem numa caixinha forrada, a gente confere a casca contra a luz, procura mancha, cheira, guarda longe das crianças. É um fruto tratado como peça de vidro. Por isso a primeira vez que li esta mishná eu ri alto: houve um Sucot em Jerusalém em que o povo pegou os seus etrogim e atirou na cabeça de um sacerdote.

A água que só se derramava em Sucot

Todo dia do ano o altar recebia vinho. Em Sucot recebia também água, e só em Sucot. A Mishná descreve a cerimônia com a paciência de quem esteve lá: um jarro de ouro de três log enchido no tanque de Shiloach, a procissão subindo até o Portão da Água, o shofar tocando três vezes na chegada, e em cima do altar duas bacias de prata furadas, uma para o vinho e outra para a água, com furos de tamanhos diferentes para que as duas esvaziassem ao mesmo tempo (Mishná Sucá 4:9).

A Torá escrita não fala em água nenhuma. O Talmud diz que o costume veio junto com a Torá, de boca em boca: "a aravá e a libação da água são lei dada a Moshé no Sinai" (Sucá 34a).

עֲרָבָה וְנִיסּוּךְ הַמַּיִם הֲלָכָה לְמֹשֶׁה מִסִּינַי

E é aí que começa a briga. Os saduceus, o partido dos sacerdotes aristocratas, só aceitavam o que estava escrito. Tradição oral, para eles, era invenção dos fariseus. Um cerimonial inteiro que não aparece em versículo nenhum era o lugar perfeito para um saduceu mostrar o que pensava.

"Levanta a mão"

A mesma mishná guarda um detalhe que à primeira vista é só protocolo. Quando o sacerdote ia derramar a água, o povo gritava para ele: levanta a mão! Assim todo mundo via a água caindo no lugar certo. E a Mishná explica o motivo em uma linha:

שֶׁפַּעַם אַחַת נִסֵּךְ אֶחָד עַל גַּבֵּי רַגְלָיו, וּרְגָמוּהוּ כָל הָעָם בְּאֶתְרוֹגֵיהֶן

Porque uma vez um deles derramou nos próprios pés, e o povo inteiro o apedrejou com os seus etrogim.

A Guemará completa a cena e diz quem era: um saduceu. E acrescenta que naquele dia, no tumulto, quebrou-se um canto do altar, e tiveram de tapar o buraco com um bloco de sal para o serviço continuar (Sucá 48b).

Repara no que o povo tinha na mão. Era o sétimo mês, o pátio lotado, cada peregrino com o seu lulav e o seu etrog, porque em Sucot a pessoa anda com eles o dia inteiro no Templo. Ninguém precisou procurar pedra.

O rei que era sacerdote

A Mishná não diz o nome. Flávio Josefo, o historiador judeu do século I, conta uma história muito parecida. Alexandre Janeu, o rei asmoneu que também era sumo sacerdote, estava junto do altar na festa dos Tabernáculos quando o povo se levantou contra ele e o atacou com cidras, "que tinham nas mãos, porque a lei manda que na festa cada um leve ramos de palmeira e de cidreira". Os insultos foram além: gritaram que ele não era digno do sacerdócio. Janeu respondeu com a tropa, e Josefo fala em cerca de seis mil mortos (Antiguidades Judaicas 13.372-373).

Josefo não conta o que Janeu fez com a água. Muitos historiadores ligam as duas histórias, e há quem prefira mantê-las separadas. Eu fico com as duas lado a lado: o mesmo altar, a mesma festa, o mesmo fruto voando.

A festa que não deixava ninguém dormir

A briga ficou famosa, mas o Sucot do Templo é lembrado pelo contrário. Toda noite da festa, depois do primeiro dia, havia a Simchat Beit HaShoevá, a alegria da casa de onde se tira a água. A Mishná abre o capítulo com uma frase que ninguém esquece:

כָּל מִי שֶׁלֹּא רָאָה שִׂמְחַת בֵּית הַשּׁוֹאֵבָה, לֹא רָאָה שִׂמְחָה מִיָּמָיו

Quem não viu a alegria da casa da água nunca viu alegria na vida (Mishná Sucá 5:1).

No pátio das mulheres levantavam candelabros de ouro com quatro bacias no alto de cada um. O Talmud diz que tinham cinquenta côvados, uns vinte e cinco metros (Sucá 52b). Quatro rapazes das famílias sacerdotais subiam por escadas carregando jarros de óleo. Os pavios eram feitos com as calças e os cintos velhos dos sacerdotes, rasgados em tiras. E não havia pátio em Jerusalém que não ficasse iluminado por aquela luz (Mishná Sucá 5:2-3).

Os mais sábios da cidade dançavam com tochas na mão. Rabban Shimon ben Gamliel fazia malabarismo com oito tochas acesas, jogando uma e pegando outra sem deixar nenhuma tocar o chão (Sucá 53a). Os levitas tocavam nos quinze degraus que desciam para o pátio, um degrau para cada um dos quinze salmos que começam com shir hamaalot. E Hillel, o velho, dizia no meio da festa uma frase que soa estranha na boca de um homem conhecido pela humildade: "se eu estou aqui, tudo está aqui". A leitura tradicional é que ele falava em nome de D'us, e não de si mesmo.

A festa era tão cheia que os sábios tiveram de fazer o que a Mishná chama de "um grande conserto": construíram galerias no alto para as mulheres assistirem de cima, com os homens embaixo, porque a mistura estava virando outra coisa (Sucá 51b).

O tanque que apareceu num conserto de esgoto

Por séculos o tanque de Shiloach ficou só no texto. Havia um tanque pequeno com esse nome no fim do túnel de Ezequias, mas ninguém sabia onde estava o do tempo do Segundo Templo.

Em 2004, uma equipe consertava um cano de esgoto na Cidade de David, logo abaixo das muralhas de Jerusalém. A retroescavadeira bateu em degraus de pedra. Os arqueólogos Eli Shukron e Ronny Reich foram chamados e o que apareceu foi a escadaria de um tanque enorme, do período do Segundo Templo. De lá sai uma rua de pedra que sobe em direção ao Monte do Templo. É o caminho que o jarro de ouro fazia toda manhã de Sucot, e hoje dá para caminhar por dentro dele, debaixo da terra.

Os degraus escavados do tanque de Shiloach, na Cidade de David, em Jerusalém, com a rua de pedra subindo ao fundo

O que sobrou

O Templo não existe há quase dois mil anos, e o altar não recebe água. Mas a festa ficou. Muitas comunidades ainda fazem Simchat Beit HaShoevá nas noites de chol hamoed, com música e dança, e o nome continua o mesmo: a alegria da casa da água.

E o etrog continua na mão. Neste Sucot, quando você segurar o seu, pensa que ele já foi arma de protesto no pátio mais sagrado do mundo. E depois guarda com cuidado, que etrog bom não se acha em qualquer esquina.

Leu até o fim? Deixa o coração aqui embaixo. É por ele que eu sei o que escrever na semana que vem.

Fontes: Mishná Sucá 4:9 e 5:1-4 · Talmud Bavli, Sucá 34a, 48b, 51b, 52b, 53a · Flávio Josefo, Antiguidades Judaicas 13.372-373 · Escavação do tanque de Shiloach, Cidade de David, 2004 (Eli Shukron e Ronny Reich).

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