Os holofotes foram instalados de propósito. Dois, enormes, na frente da Sinagoga Coral de Moscou, iluminando a rua Arkhipova de ponta a ponta. Nas grandes festas daquele outono, quem entrava na sinagoga tinha sido fotografado, e todo mundo sabia disso. A luz era um recado: alguém está olhando.

Era a noite de Simchat Torá de 1965, e os jovens vieram mesmo assim. Vieram às dezenas de milhares.

Um jornalista de 37 anos estava no meio deles, tomando nota. Elie Wiesel tinha ido à União Soviética como repórter do Forverts, o jornal ídiche de Nova York, e escolheu passar a festa em Moscou. O relato virou livro no ano seguinte, The Jews of Silence, os judeus do silêncio. A pergunta que abre o capítulo daquela noite é de onde saiu toda aquela gente, que mal se conhecia e sabia menos ainda de judaísmo, e como todos sabiam que era hoje, ali, naquela rua.

O que se dizia sobre aquela juventude

Para entender o susto de Wiesel é preciso saber o que se dizia na época. Na União Soviética não havia yeshivá, escola judaica, clube judaico, livro judaico. Quem falava pelo governo, no exterior, dava uma explicação redonda: a juventude não tem interesse, o judaísmo é coisa de velho. Os próprios velhos que Wiesel encontrou pelo caminho diziam algo parecido, com tristeza. Não viam futuro.

Os encontros de Simchat Torá tinham começado quatro ou cinco anos antes, no afrouxamento dos tempos de Khrushchev. No começo eram algumas centenas de estudantes. Depois, milhares. Em 1965, a rua não cabia.

Havia quem dissesse que era só um ponto de encontro, um clube a céu aberto para fazer amigos e aprender música nova. Wiesel respondeu que Moscou tinha lugares de sobra para jovens se encontrarem. Se escolhiam a porta da sinagoga, era porque queriam estar entre judeus, uma noite por ano pelo menos, e isso bastava para aguentar até a próxima.

Lá dentro

A sala principal tinha mais de dois mil homens e mulheres. Muitos levaram os filhos. Wiesel conta que um senhor pediu a uma criança israelense a bandeirinha que ela segurava, para dar ao neto, e o menino russo beijou a bandeira. Um informante se aproximou e exigiu a devolução. O velho hesitou um segundo e disse que não. Os amigos ficaram do lado dele, e o informante baixou a cabeça.

Quando os rolos saíram da arca, a sinagoga virou outra coisa. Havia gente ali que nunca tinha rezado e veio só para ver as voltas e honrar a Torá. Homens que não viam um rolo o ano inteiro o abraçavam e beijavam. Avôs punham os netos nos ombros e mandavam olhar e lembrar.

Wiesel levou um dos rolos numa das voltas e não conseguiu andar. As pessoas fechavam o caminho de propósito, queriam que ele ficasse. Cada uma tinha alguma coisa para dizer no ouvido, sempre baixinho. Tenho um irmão em Israel. Uma irmã em Jerusalém. Um tio em Haifa. Sem nome, só o parentesco, para que alguém lá soubesse. Um operário de boné caído na testa pediu para falar sem ninguém ouvir, cantarolou no ouvido dele a primeira estrofe da Hatikvá e sumiu na multidão.

A volta durou quase uma hora. Wiesel escreveu que quem não viu Simchat Torá em Moscou nunca viu alegria na vida, e que só por aquilo já teria valido a viagem.

Um ano depois, as luzes se apagaram

Ele voltou em outubro de 1966, com medo de se decepcionar, porque o que é milagre não costuma se repetir. O relato dessa segunda visita saiu na revista Commentary em fevereiro de 1967, e é ainda mais forte que o primeiro.

Na semana anterior, tinham aparecido cartazes nos murais da universidade avisando que a "sinfonia" de Simchat Torá seria apresentada na noite de 6 de outubro, no lugar e na hora de sempre. Vieram entre trinta e quarenta mil jovens. A polícia fechou as ruas do entorno e deixou médicos e ambulâncias de prontidão, que ninguém precisou chamar. Ninguém foi preso.

Dentro da sinagoga estavam quatro gerações, e Wiesel anotou que só a mais velha sabia rezar. Os netos não tinham ideia do que a religião pedia. Um ou outro vencia a vergonha e beijava a Torá sem que ninguém nunca tivesse contado o que estava escrito nela, ou cantava uma melodia chassídica que tinha acabado de aprender, sem as palavras. Wiesel perguntou a um rapaz o que ele fazia ali. O rapaz devolveu a pergunta. Wiesel entendeu que ele estava procurando a si mesmo.

Lá fora, em volta de uma moça com violão, cantavam canções em ídiche. Mais adiante alguém tocava balalaica, outro, gaita. O hino que os jovens tinham escolhido era uma música de casamento judaico, aquela em que os convidados são chamados a saudar os noivos, com a letra trocada: vamos todos juntos saudar o povo de Israel. Wiesel lembrou de uma história de I. L. Peretz sobre um menino de aldeia que tocava flauta na sinagoga porque não sabia rezar.

Perto da meia-noite, os dois holofotes se apagaram.

Wiesel entendeu como um recado de cima: hora de ir para casa, amanhã é dia de aula e de trabalho, volte em 1967. A rua ficou no escuro e em silêncio por um minuto. Depois veio um gemido de decepção e um protesto. Alguém tirou um jornal do bolso e pôs fogo, só para enxergar. O vizinho fez o mesmo. A ideia correu de roda em roda, e em poucos minutos milhares de jornais queimavam ao mesmo tempo, erguidos como tochas. Ninguém tinha combinado. Não se cantava nem se falava, só se ouvia o papel estalando.

Então uns cem estudantes subiram na sacada de um prédio vizinho, levantaram as tochas e começaram a gritar em hebraico e em russo: Am Israel chai, o povo de Israel vive. A rua inteira respondeu.

Rua escura diante da sinagoga, com os holofotes apagados e centenas de jovens de costas erguendo jornais em chamas como tochas; à direita, estudantes numa sacada com tochas levantadas. Ilustração.

Wiesel leu naquilo uma virada. Até então, aqueles jovens preferiam se encontrar nas sombras, em pátios de rua lateral, e desconfiavam de quem ficava de lado olhando. Naquela noite, ficaram bravos quando a luz apagou. Queriam ver e ser vistos.

O pai que encontrou o filho na multidão

De tudo o que Wiesel ouviu naquela visita, a história que mais fica é a de um professor de línguas de uma universidade soviética. Um ano antes, ele tinha contado que ia escondido à rua Arkhipova toda noite de Simchat Torá e que não falava disso com o filho. Até que encontrou o filho lá, no meio da multidão. Em 1966, os dois foram juntos.

Wiesel perguntou se, no resto do ano, eles conversavam sobre judaísmo em casa. Não conversavam. A esposa não era judia e ele não queria confusão. Mas o professor achava que aquilo não ia ficar parado. Quem vem dançar em Simchat Torá, disse, acaba querendo viver como judeu o ano inteiro.

O que veio depois

The Jews of Silence sacudiu os judeus do Ocidente. O movimento estudantil americano pela liberdade dos judeus soviéticos fez broches com a pergunta que o livro deixava no ar: os judeus do silêncio somos nós? Wiesel fechou o livro dizendo que o que mais o atormentava não era o silêncio dos judeus da Rússia, e sim o dos judeus entre os quais ele vivia.

Em 1986, 21 anos depois da primeira viagem, Wiesel voltou à mesma sinagoga na noite de Simchat Torá. A emigração para Israel ainda estava trancada, e lá estavam milhares de jovens e os refuseniks, os judeus a quem o governo negava o visto de saída. Três anos depois, as portas abriram. Entre 1989 e 2006, cerca de 979 mil judeus e seus familiares da antiga União Soviética chegaram a Israel, onde já moravam os irmãos, as irmãs e os tios que tanta gente cochichou no ouvido de Wiesel sem dizer o nome.

Uma festa em que ninguém precisa saber ler

Simchat Torá tem um detalhe que explica muito do que aconteceu em Moscou. Nas voltas, os rolos saem da arca fechados. Ninguém lê nada ali. Quem sabe tudo e quem não sabe uma letra carregam o mesmo livro enrolado e dão a mesma volta. A festa marca o fim da leitura anual da Torá e o recomeço no mesmo dia, e o gesto que mais a define dispensa saber ler.

Muita gente que chega à Herança Hebraica carrega uma vergonha parecida com a daqueles jovens: acha que sabe pouco demais, que não tem o direito, que precisa estudar antes de entrar. Em Moscou, a maior parte não sabia rezar. Beijavam um livro que nunca tinham aberto e cantavam uma música sem saber a letra. Wiesel olhou para eles e concluiu que o povo de Israel vivia.

Aqui em Tiberíades, Shemini Atzeret e Simchat Torá caem no mesmo dia: a festa começa na sexta à noite e termina no sábado. No Brasil, Simchat Torá começa quando a nossa já acabou, na saída do Shabat, 3 de outubro, e segue pelo domingo. Na maioria das sinagogas, as voltas com a Torá acontecem nessa noite e de novo na manhã de domingo, e em muitas delas a roda está aberta a quem chegar.

Fontes

Elie Wiesel, The Jews of Silence: A Personal Report on Soviet Jewry (1966), capítulo sobre o Simchat Torá de 1965 em Moscou. Trecho reproduzido com permissão pelo Forward em 11 de outubro de 2017.

Elie Wiesel, "Will Soviet Jewry Survive?", Commentary, fevereiro de 1967, sobre a visita de outubro de 1966.

Glenn Richter, "How Elie Wiesel inspired the Free Soviet Jewry movement", JTA, 3 de julho de 2016.

Os números da imigração vêm das estatísticas de 1989 a 2006 compiladas no verbete "1990s post-Soviet aliyah" da Wikipédia em inglês.

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