Nesta semana lemos Noach, e a quinta-feira, 4 de Cheshvan, ainda está no começo do mês. O Shabat cai em 6 de Cheshvan. A parashá reserva para o fim uma história de nove versículos que quase todo mundo conhece pelo nome: Babel. O que pouca gente nota é uma lacuna. O dilúvio vem com motivo escrito. Babel, não.
Nove versículos sem uma acusação
O texto começa assim:
וַיְהִי כׇל־הָאָרֶץ שָׂפָה אֶחָת וּדְבָרִים אֲחָדִים
"Toda a terra tinha uma só língua e as mesmas palavras." (Gênesis 11:1)
Os homens saem do oriente, acham um vale na terra de Shinar e decidem fazer tijolos. Depois dizem a frase que sustenta a história inteira:
וַיֹּאמְרוּ הָבָה נִבְנֶה־לָּנוּ עִיר וּמִגְדָּל וְרֹאשׁוֹ בַשָּׁמַיִם וְנַעֲשֶׂה־לָּנוּ שֵׁם פֶּן־נָפוּץ עַל־פְּנֵי כׇל־הָאָרֶץ
"Vamos construir para nós uma cidade e uma torre com o topo no céu, e fazer um nome para nós, para que não sejamos espalhados por toda a terra." (Gênesis 11:4)
D'us desce para ver a cidade e a torre, fala de um povo com uma língua só e decide confundir a fala deles. Os homens se espalham e param de construir. O lugar ganha o nome de Bavel, de balal, confundir.
Leia de novo e procure a acusação. Não há "pecaram", nem "maldade", nem a palavra "rebelião". A Torá narra o que eles fizeram e o que aconteceu depois, e deixa o espaço entre as duas coisas em branco. Quem aponta essa lacuna é o próprio Midrash, que compara as duas gerações: os atos da geração do dilúvio estão escritos com todas as letras, e os da geração da dispersão não estão (Bereshit Rabá 38:6). O Talmud faz a pergunta direta. Sobre os que não têm parte no mundo vindouro, a Guemará pergunta qual foi o pecado deles, e responde que a Torá não o delineia (Sanhedrin 109a).
Um dado de contexto, que o próprio texto fornece: no capítulo anterior, a Torá já apresentou Bavel como a primeira das cidades do reino de Nimrod, "o primeiro herói da terra" (Gênesis 10:8-10). Quando chega a hora de contar a torre, o leitor já conhece o lugar e o rei, só não sabe o que deu errado.
A partir daí, a tradição procurou. O que segue são as respostas mais antigas, lado a lado, com a data de cada uma indicada quando ela é discutida.
Um vale sem pedras
Antes do motivo, o cenário. Rashi repara num detalhe de engenharia no versículo 3: eles fazem tijolos porque não há pedra em Babel, que é uma planície. Tijolo cozido no forno, argamassa de betume. A narrativa explica o material como quem explica um truque local.
Há quem associe a torre a uma construção real da Mesopotâmia, o zigurate. Era uma plataforma em degraus, de núcleo de tijolo cru e revestimento de tijolo queimado, com um templo no alto. Os arqueólogos costumam apontar o Etemenanki, de Babilônia, dedicado ao deus Marduk. O nome sumério do templo significa algo como "casa da fundação do céu e da terra". Parte dos estudiosos propõe que ele tenha inspirado o relato bíblico. Mas é uma hipótese, não um dado: as medidas do Etemenanki são disputadas (uma tabuinha tardia fala em 91 metros, e há quem calcule bem menos), e o que sobra hoje no terreno são fundações.
O Talmud tem uma observação que parece de quem esteve lá. Alguns diziam que o plano era subir ao céu e furar o firmamento com machados, para as águas escorrerem. Os sábios da terra de Israel riram: se era esse o plano, por que construir num vale e não numa montanha? (Sanhedrin 109a). A pergunta é boa. A tradição não a responde. Deixa-a ali, como um prego solto.
O sinal de que o céu era o alvo
A primeira resposta é a mais dramática. Rashi, logo no versículo 1, começa dizendo que a "língua única" era a língua santa, o hebraico, e passa para as "mesmas palavras", devarim achadim. Ele as lê de mais de um jeito. Num deles, os homens chegaram com um só plano: fazer guerra contra o alto, porque D'us não teria o direito de reservar os céus só para si. Noutro, eram palavras chadim, afiadas, ou seja, duras. Para esse segundo sentido, Rashi cita Bereshit Rabá 38:6.
O Midrash desenvolve a ideia com uma imagem que não se esquece. Para a geração da dispersão, o Midrash atribui estas palavras: que arrogância dele, escolher o andar de cima para si e nos deixar o de baixo. Então vamos construir uma torre, pôr no topo um ídolo com uma espada na mão, e vai parecer que ele guerreia contra o Eterno. O mesmo trecho diz que falaram mal de Avraham, "uma mula estéril que não gera filhos".
No mesmo trecho, R. Eliezer pergunta o que é pior para um rei: ouvir "ou eu, ou você no palácio" ou ouvir "eu estou no palácio e você não". Ele põe a geração de Babel no segundo caso, e a do dilúvio, que disse "o que é o Todo-Poderoso para o servirmos?", no primeiro. Pela conta dele, o erro de Babel seria o mais grave. O castigo, porém, foi o mais leve: da geração do dilúvio não sobrou ninguém, e da de Babel sobrou um remanescente.
O Talmud acrescenta a divisão em três grupos, atribuída a R. Yirmeya bar Elazar. Um grupo queria subir e morar lá em cima. Outro queria subir e adorar ídolos. O terceiro queria subir e guerrear. Tudo isso é midrash, leitura rabínica sobre o texto, e o próprio Talmud registra a discordância. R. Natan, por exemplo, diz que todos os grupos tinham a idolatria em mente. Ele lê o shem de "façamos um nome" como culto a outros deuses, pelo mesmo uso da palavra em Êxodo 23:13. O Sforno, na Idade Média, segue por aí: o "nome" seria o ídolo posto na torre, para que a cidade fosse reconhecida como centro do mundo e o seu rei dominasse todos.
O tijolo que valia mais que o homem
O Pirkei DeRabbi Eliezer, obra de data discutida e bem posterior ao Talmud, oferece outra imagem, e é a que mais fica na memória. Ela vem de R. Pinchas. A torre tinha sete milhas de altura e duas rampas, uma subia pelo leste, outra descia pelo oeste. Quem carregava tijolos subia pela primeira. Quem voltava de mãos vazias descia pela segunda.

"Se um homem caía e morria, ninguém dava atenção. Se um tijolo caía, sentavam-se e choravam: ai de nós, quando virá outro no lugar dele?"
Não sei de leitura mais sintética do que aconteceu ali. A obra tem Nimrod como rei e Avraham passando por perto, amaldiçoando os construtores em nome de seu D'us. É uma narrativa tardia, que se lê melhor como midrash do que como fato. O que ela faz bem é mudar a pergunta. Em vez de "contra quem eles se levantaram", pergunta "o que passou a valer mais do que uma pessoa".
O pecado de ficar parado
Há uma leitura bem diferente, e vem de um comentarista do século XIX, o Netziv, R. Naftali Tzvi Yehuda Berlin, no Haamek Davar. Ele começa por onde ninguém tinha começado: a língua única.
Segundo ele, foi isso que provocou o primeiro erro. Os homens combinaram parar num único lugar. E isso contraria o que D'us disse a Noach e a seus filhos logo depois do dilúvio: "sede fecundos, multiplicai-vos e enchei a terra" (Gênesis 9:1), isto é, andar por todos os lugares, pois a terra foi criada para ser habitada.
O Netziv acrescenta uma cena sombria. A torre, diz ele, servia para ver de longe e vigiar, e havia chefes postos para punir quem atravessasse a fronteira. O medo de "ser espalhados" era medo de que alguém pensasse diferente. Quem se desviava da uniformidade era punido, como fizeram, segundo a tradição, com Avraham. As "mesmas palavras" do versículo seriam o pensamento único que se impunha à força.
Nessa leitura, a dispersão deixa de parecer só castigo e passa a ter ar de correção de rumo. Outros viram o episódio com menos dureza. O Ibn Ezra diz que os construtores não pretendiam se rebelar contra D'us. Esperavam que a cidade e a torre os mantivessem juntos, e não sabiam que a vontade dele era outra.
Os que se amavam
Fica um detalhe do Midrash que complica qualquer conclusão fácil. Bereshit Rabá 38:6 faz uma comparação. Da geração do dilúvio não restou ninguém. Da geração da dispersão restou um remanescente. A razão dada: a primeira estava mergulhada no roubo, e a segunda se amava, porque "toda a terra tinha uma só língua". A unidade, portanto, vinha acompanhada de afeto, e o Midrash a reconhece como algo que pesou a favor deles.
A mesma passagem conta o destino da torre. Um terço queimou, um terço afundou na terra, e um terço continua de pé. E quem subia ao topo, dizem, via as palmeiras lá embaixo como gafanhotos.
O que a parashá faz depois
A parashá Noach não volta ao assunto. Depois do versículo 9, a narrativa passa para a genealogia de Shem e chega a Terach, que sai de Ur Kasdim com o filho Avram, a nora Sarai e o neto Lot, rumo a Canaã, e para em Charan (Gênesis 11:31). A palavra seguinte da Torá, já na parashá Lech Lecha, é "vai": "sai da tua terra e da casa de teu pai" (Gênesis 12:1).
Fica a lacuna. A Torá não escreveu o pecado, e cada comentarista entregou uma resposta diferente: a guerra contra o alto, o ídolo, o tijolo que valia mais que o homem, o povo que não quis se espalhar. Nenhuma foi descartada pela tradição, e todas foram guardadas lado a lado. A cidade, ao menos, ficou com um nome que ensina o que aconteceu com a fala: Bavel, confusão.
Na Carta de Tiberíades desta semana, falo de outra parte da parashá: a chuva que podia ser bênção e o justo que ficou dentro da arca. Ela chega hoje no Telegram e no WhatsApp.