Neste Shabat a Torá volta para a primeira página. Depois de um ano inteiro de leitura, que terminou em Simchat Torá, as sinagogas abrem de novo em Bereshit, no princípio, e leem como o mundo foi feito em seis dias.
Quem ouve esse capítulo desde criança tende a achar que ele é a única maneira de contar o começo de tudo. Não era. Os povos vizinhos de Israel tinham as suas versões, e uma delas, a da Babilônia, era recitada com pompa num templo enorme. Mais de dois mil anos depois, numa cidade de pedra na Galileia, um rabino de trinta e poucos anos contou o começo de um jeito que ninguém tinha imaginado antes.
Este texto põe as duas histórias lado a lado, com Bereshit no meio.
A versão que se recitava na Babilônia
O poema se chama Enuma Elish, as duas primeiras palavras em acadiano, que querem dizer "quando no alto". Ocupa sete tábuas de argila. A cópia mais antiga que se conhece é do século IX antes da era comum, achada em Assur, e a data em que foi composto ainda é discutida entre os especialistas.
No começo, segundo o poema, só havia água: Apsu, a água doce, e Tiamat, a água salgada, misturadas. Deles nascem os deuses, que fazem barulho demais. Apsu resolve matar os filhos e acaba morto por eles. Tiamat, a mãe de todos, levanta um exército de monstros para vingá-lo.
Os deuses mais jovens procuram um campeão. Marduk aceita lutar com uma condição: se vencer, vira rei. Na quarta tábua ele mata Tiamat com uma flecha e, nas palavras de uma tradução antiga, a parte em duas como se parte um peixe achatado. Com uma metade monta o céu, estica a pele e põe guardas para que as águas dela não escapem. Na quinta tábua organiza as estrelas, a lua e os dias do ano. Na sexta, os deuses matam um dos rebeldes, Kingu, e com o sangue dele fazem o ser humano, para trabalhar no lugar dos deuses e deixá-los descansar.
Um texto de ritual da época selêucida diz que o poema era recitado na festa de ano novo da Babilônia, o Akitu. Há especialistas que discutem até onde isso valia para épocas mais antigas, mas a ideia de que o mundo nasce de uma guerra, e que a cidade de Marduk é o prêmio dela, estava no coração da religião do império.
O que Bereshit faz com o mesmo material
Quem lê Bereshit 1 depois do Enuma Elish começa a notar coincidências. Logo no versículo 2 aparece a escuridão sobre a face de tehom, תְּהוֹם, o abismo de água. A palavra hebraica é parente do acadiano tiāmtum, que quer dizer mar, e do nome Tiamat. Na Torá, porém, o abismo não tem vontade nem exército. É água parada esperando.
Ninguém luta. O mundo vem de frases: vayômer Elohim, yehi, e disse D'us: haja. A luz, o firmamento, a terra seca, cada coisa aparece porque foi chamada.
No quinto dia a Torá conta que D'us criou hataninim hagdolim, os grandes monstros do mar (Bereshit 1:21). Nas mitologias da região, monstros marinhos eram inimigos dos deuses, a matéria das guerras do começo. Em Bereshit eles são bichos criados no mesmo dia que os peixes, e o versículo termina dizendo que D'us viu que era bom.
No quarto dia vêm os luminares, e aqui está o detalhe que mais intriga. O texto não diz sol nem lua. Diz hamaor hagadol e hamaor hakatan, o luminar grande e o luminar pequeno (Bereshit 1:16). A palavra hebraica para sol, shêmesh, é a mesma raiz do nome do deus-sol da Mesopotâmia, Shamash. Muitos estudiosos da Bíblia leem a escolha como proposital: no capítulo da criação, o sol aparece sem nome, quase como uma lâmpada pendurada no céu, com uma função descrita no versículo 14, marcar os dias, as estações e os anos.
E o ser humano, que na Babilônia é feito do sangue de um deus derrotado para carregar o trabalho dos outros, em Bereshit é feito betsêlem Elohim, à imagem de D'us (1:27), e recebe uma bênção.
A tradição rabínica não lê Bereshit como resposta à Babilônia. Ela tem as suas próprias perguntas, e uma delas aparece num midrash antigo. Rabi Yehudá bar Simon reparou que o primeiro dia termina com vayhi érev, e houve tarde, e não com yehi érev, haja tarde, como se já existisse uma ordem de tempo antes. Rabi Abahu tirou daí uma ideia ousada: D'us criava mundos e os destruía, até criar este, e disse que este lhe agradava (Bereshit Rabá 3:7).
Quinze séculos depois, em Tzfat, essa ideia de mundos que não ficaram de pé voltaria com outra força.
Tzfat, 1570
Yitzchak Luria nasceu em Jerusalém por volta de 1534 e cresceu no Egito. Passou anos estudando o Zohar sozinho, numa casa à beira do Nilo, e no começo de 1570 chegou a Tzfat, a cidade na montanha onde viviam, naquele tempo, alguns dos maiores cabalistas do mundo judaico. Morreu lá em julho de 1572, com 38 anos. Ficou na cidade menos de três anos.
Ficou conhecido como Ari, o leão, uma sigla que a tradição costuma ler como haElohi Rabi Yitzchak, o divino Rabi Yitzchak. Escreveu quase nada. O que sabemos do que ele ensinava vem dos alunos, principalmente de Rabi Chayim Vital, que organizou as anotações em livros. O mais conhecido é o Etz Chayim, a Árvore da Vida, impresso pela primeira vez em 1772.
Tzfat fica nas montanhas ao norte do Kinéret, a menos de uma hora de carro de Tiberíades.
O D'us que se retirou
A pergunta do Ari é de criança e de filósofo ao mesmo tempo: se D'us está em tudo, onde é que cabe o mundo?
O Etz Chayim abre o tema assim: antes de qualquer coisa ser criada, havia uma luz simples que enchia toda a realidade, sem nenhum lugar vazio, sem começo e sem fim. Quando surgiu a vontade de criar, essa luz infinita se contraiu, tsimtsem et atsmô, a partir do ponto do meio, e se afastou para as bordas. Ficou no centro um espaço vazio, redondo. Só então entrou nesse vazio uma linha reta de luz, que o texto compara a um cano fino, e dentro desse espaço os mundos foram feitos.

A palavra virou termo técnico da Cabalá: tsimtsum, contração. Para o Ari, o primeiro gesto da criação foi D'us dar um passo atrás.
Os vasos que quebraram
A história continua, e fica mais estranha. A luz que desceu pela linha foi derramada em recipientes, os kelim, e alguns deles não aguentaram a força. Quebraram. O Etz Chayim dedica um capítulo inteiro a isso, o Shaar Shevirat HaKelim, o portão da quebra dos vasos, e chama os vasos quebrados de "os sete reis" que morreram. É uma alusão à lista dos reis de Edom, os que "reinaram na terra de Edom antes que reinasse um rei sobre os filhos de Israel" (Bereshit 36:31), cada um com o seu "e reinou" e o seu "e morreu". O Zohar já tinha lido essa lista como arranjos do mundo que não se sustentaram.
Com a quebra, faíscas da luz ficaram presas nos cacos, espalhadas pelo mundo. No ensino que saiu de Tzfat, cada ação humana feita do jeito certo pode erguer uma dessas faíscas e devolver o que se partiu ao seu lugar. É o tikun, o conserto.
A expressão tikun olam é mais velha que o Ari. Já aparece na Mishná, no sentido jurídico de "para o bom ordenamento do mundo" (Guitin 4:2). Mas foi a Cabalá de Tzfat que deu a ela a imagem de um mundo quebrado desde o primeiro dia, que espera ser consertado por gente.
Três começos na mesma prateleira
Postos lado a lado, os três relatos dizem coisas muito diferentes sobre quem somos.
Na Babilônia, o céu é o cadáver de uma deusa vencida, e o ser humano é mão de obra. Em Bereshit, o mundo sai de palavras, os monstros são criaturas e a pessoa é imagem de D'us. Em Tzfat, o mundo existe porque D'us abriu espaço, nasceu rachado, e a tarefa humana é juntar as faíscas.
O Ari não estava respondendo a Marduk; o Enuma Elish passou mais de dois mil anos enterrado e só foi encontrado nas ruínas de Nínive no século XIX. Ele estava lendo Bereshit, o Zohar e os midrashim, os mesmos textos que as sinagogas vão abrir neste Shabat.
Na Carta de Tiberíades desta semana a criação aparece por outro lado: a pergunta de Rashi sobre por que a Torá não começa pela primeira mitzvá, e a história da primeira noite de Adam. Ela chega hoje no Telegram e no WhatsApp.