Existe uma lei na Torá que faz o oposto do que se espera de uma lei. Ela purifica quem está impuro e, no mesmo gesto, deixa impuro quem a executa. É a vaca vermelha, a pará adumá, e é com ela que abre a parashá de Chukat.
O ritual está em Bemidbar 19. Uma vaca inteiramente vermelha, sem defeito, que nunca puxou arado, é levada pra fora do acampamento e queimada. As cinzas se misturam com água de fonte, e essa água é aspergida sobre quem teve contato com a morte, pra devolver a pessoa ao convívio, pura outra vez. Até aí, tudo bem. O estranho vem agora: o sacerdote que prepara as cinzas e conduz o rito de purificar os outros sai dele impuro. A mesma água que limpa um, mancha o outro.
A Torá não tenta disfarçar isso. Ela apresenta a lei com uma fórmula que não usa em nenhuma outra: zot chukat haTorá, "esta é a chuká da Torá". Chuká, ou chok, é o nome que a tradição dá às leis que não vêm com o porquê escrito. Há mandamentos que a gente entende sozinho, como não roubar ou honrar os pais. E há os chukim, que se cumprem sem que a razão apareça. A vaca vermelha é o maior exemplo de todos, porque nela não só falta o porquê, como o que ela faz parece se contradizer.
זֹאת חֻקַּת הַתּוֹרָה
Conta um midrash que um homem de fora procurou Rabban Yochanan ben Zakai e disse, sem rodeios, que aquilo parecia feitiçaria: você queima uma vaca, tritura, junta a cinza com água, joga umas gotas em quem encostou num morto e anuncia que ele está limpo. O sábio respondeu com uma comparação que acalmou o visitante, e o homem foi embora satisfeito. Mas os alunos não engoliram. Viraram pro mestre: a ele você empurrou com uma resposta fácil; e pra nós, o que você diz? Rabban Yochanan foi direto. Não é o morto que torna impuro, nem a água que purifica. É um decreto do Rei, e o porquê não está na minha mão.
Nem na mão do homem mais sábio esteve. A tradição conta que o rei Salomão, que teria entendido o sentido de cada mandamento, parou na vaca vermelha. Sobre ela escreveu a frase que virou o suspiro de todo mundo que tentou depois: "pensei que entenderia, mas ficou longe de mim" (Kohelet 7:23, que o midrash lê como sendo justamente sobre a pará adumá).
Dá pra ler isso como um beco sem saída. A tradição lê de outro jeito. O chok não marca uma falha do entendimento. Marca o ponto onde o entendimento reconhece que não alcança tudo, e segue em frente mesmo assim. A vida toda tem disso. A gente sustenta coisas que não consegue justificar inteiras: por que ama quem ama, por que um certo gesto consola, por que uma mesa de sexta à noite muda o peso da semana. Nem tudo que orienta uma vida cabe dentro de um porquê.
Há leis pra entender, e há leis pra viver enquanto não se entende.
A própria Guemará guarda uma história em que a vaca vermelha aparece justamente desse lado, o do gesto que não faz conta. Quando perguntaram a Rabi Eliezer até onde vai o dever de honrar pai e mãe, ele mandou olhar o que fez um homem de fora, Dama ben Netina, de Ashkelon (Kidushin 31a). Os sábios precisavam de uma pedra preciosa pro peitoral do Cohen Gadol e foram comprá-la com ele por uma quantia enorme. Dama queria vender, mas a chave do cofre estava debaixo do travesseiro do pai, que dormia. Ele não acordou o pai. Os sábios ofereceram mais, e mais, e ele seguiu dizendo que não. Perdeu a fortuna inteira pra não tirar o sono do velho.
No ano seguinte, nasceu uma vaca vermelha no rebanho dele, das mais raras que existem, e os sábios precisavam justo de uma. Voltaram à porta de Dama. Ele sabia que podia cobrar o que quisesse, era o único a ter. Pediu só o valor que tinha perdido no ano anterior, pela pedra que não chegou a vender.
A tradição não junta as duas coisas à toa. O que Dama fez era do mesmo feitio da lei que voltou pra ele. Honrou o pai sem fazer cálculo, sem perguntar quanto aquilo ia custar, e o que veio parar na mão dele foi a vaca vermelha, a lei que se cumpre sem que o porquê apareça. Quem agiu sem calcular recebeu de volta o símbolo do que não se explica.
A vaca vermelha é o ponto em que a Torá assume isso abertamente. Há leis pra entender, e há leis pra viver enquanto não se entende. Salomão não decifrou, Dama não perguntou, e mesmo assim a coisa seguiu sendo feita, geração após geração, com a humildade de quem atravessa certas portas sem o mapa inteiro na mão.