Existe um dia no calendário judaico que a Mishná teve a coragem de colocar lado a lado com o Yom Kipur. Não é Pessach, com toda a sua mesa armada. Não é Sucot, que a própria Torá chama de tempo da nossa alegria. É uma data que passa em branco na maioria das casas judaicas do mundo: o dia quinze do mês de Av, Tu BeAv. Este ano ele caiu no fim de julho, seis dias depois do jejum mais triste do ano. E é justamente aí que a história começa a ficar interessante.
A frase mais estranha da Mishná
O tratado de Taanit se ocupa de jejuns, secas e calamidades. Página após página de aflição. E então, na última mishná do tratado, sem aviso, o texto vira do avesso:
"Não houve dias melhores para Israel que o quinze de Av e o Dia da Expiação." (Mishná, Taanit 4:8)
Quem assina a frase é Rabban Shimon ben Gamliel, e ela descreve uma cena concreta. Nesses dois dias, as moças de Jerusalém saíam pra dançar nos vinhedos, todas vestidas de branco. E a Mishná registra um detalhe que diz muito sobre o que essa festa era: as roupas eram emprestadas umas das outras, "para não envergonhar quem não tinha". A filha do rico dançava com o vestido da vizinha; a filha do pobre, com o da filha do rico. Ninguém sabia quem era quem. Antes de qualquer conversa sobre amor, a festa começava desmontando a vaidade e a diferença de classe. Os rapazes iam até lá escolher esposa; o resto é o capítulo mais antigo da história dos casamentos de Israel.
Mas fica a pergunta que os próprios sábios fizeram: o Yom Kipur, tudo bem, é o dia do perdão. E o quinze de Av, o que é? O que aconteceu nesse dia pra merecer tanto?
Seis respostas pra uma festa só
O Talmud (Taanit 30b–31a) faz essa pergunta em voz alta, e a resposta é um dos trechos mais curiosos de toda a literatura rabínica: seis sábios, seis explicações diferentes. Quando a tradição não lembra ao certo por que um dia é bom, ela não descarta nenhuma memória. Guarda todas.
A primeira: foi o dia em que pararam de morrer os condenados do deserto. A geração que saiu do Egito e não entraria na Terra morria aos poucos, ano após ano, a cada 9 de Av. No último ano, conta a tradição, os que cavaram suas covas se levantaram vivos, dia após dia, até a lua cheia confirmar: acabou. Rabbi Yochanan acrescenta que só então a palavra divina voltou a falar com Moshé como antes. O quinze de Av é, nessa leitura, o dia em que uma sentença de quarenta anos terminou.
A segunda: foi o dia em que as tribos foram autorizadas a casar entre si. As filhas de Tzelofchad, que herdaram a terra do pai, tinham recebido junto uma restrição: casar só dentro da própria tribo, pra herança não migrar. Num certo quinze de Av, os sábios entenderam que a regra valia só pra aquela geração, e as fronteiras internas de Israel se abriram. Um povo de doze tribos virou, no casamento, um povo só.

A terceira é a mais dramática, e quase ninguém a conta. No fim do livro dos Juízes, Israel travou uma guerra civil contra a tribo de Benjamim, por causa de um crime brutal em Guivá. A tribo foi quase exterminada, e os vencedores juraram: nenhuma de nossas filhas casará com um benjaminita. Depois veio o arrependimento, e com ele um problema: como reintegrar a tribo sem quebrar o juramento? A solução encontrada está escrita no próprio texto bíblico: os sobreviventes de Benjamim foram orientados a esperar nas vinhas de Shiló, na época da festa anual, quando as moças saíam pra dançar (Juízes 21:21). Dali saíram os casamentos que salvaram a tribo. Num certo quinze de Av, diz o Talmud, Benjamim voltou pra família. Repare no espelho: a dança nos vinhedos que a Mishná celebra é a memória transfigurada do dia em que uma guerra entre irmãos acabou.
A quarta explicação é política. Depois da divisão do reino, Jeroboão pôs guardas nas estradas pra impedir o povo do norte de subir a Jerusalém nas festas. Gerações mais tarde, o rei Hoshea ben Elá retirou as barreiras. As estradas reabriram num quinze de Av. Um povo que podia voltar a caminhar junto.
A quinta é a mais dura. Depois da revolta de Bar Kochba, esmagada em 135, os mortos da cidade de Beitar ficaram insepultos por decreto romano. Quando finalmente veio a permissão de enterrá-los, os corpos, conta a tradição, estavam intactos. Foi num quinze de Av, e em memória disso os sábios fixaram na bênção de depois das refeições as palavras "hatov vehametiv", o Bom que faz o bem. Até hoje, quem agradece a comida repete um eco desse dia.
E a sexta é a mais cotidiana: era o dia em que se parava de cortar lenha pro altar do Templo. Do quinze de Av em diante o sol perde força, a madeira já não seca direito, e a grande tarefa comunitária do ano se encerrava em festa. Chamavam a data de "dia da quebra do machado". O Talmud emenda ali um ditado enigmático: daqui em diante, quem acrescenta, acrescenta; quem não acrescenta, se recolhe (Taanit 31a). A leitura clássica entende que são as noites: elas começam a crescer, e há quem as acrescente ao estudo. A festa do amor é, também, o dia em que as noites voltam a valer alguma coisa.
O discurso das moças
A Guemará guarda ainda um detalhe que costuma ficar de fora das versões românticas (Taanit 31a). Enquanto dançavam, as moças falavam com os rapazes, e cada grupo dizia uma coisa. As bonitas diziam: ponham os olhos na beleza. As de boa família diziam: ponham os olhos na linhagem, porque mulher é pra construir uma casa. E as que não eram nem uma coisa nem outra diziam: casem por amor ao Céu, e me coroem de ouro depois.
É de uma honestidade que desarma. Os sábios podiam ter pintado uma cena idealizada; preferiram registrar um mercado matrimonial como ele era, com vaidade, interesse e a dignidade teimosa de quem não tinha nada a oferecer além da própria fé, e ainda assim pedia coroa. A própria Mishná, na sequência, toma partido: "enganosa é a graça e vã é a beleza"; olhem pra família, olhem pro temor do Céu. Entre o que se dizia nos vinhedos e o que a tradição ensina, fica o retrato de uma comunidade discutindo, há dois mil anos, a pergunta que ainda não resolvemos: o que se olha quando se escolhe alguém?
Por que do lado do Yom Kipur?
Volta a pergunta do começo. O que o dia das danças tem em comum com o dia mais solene do ano? Os comentaristas apontam o fio: os dois são dias de reconciliação. A tradição ensina que foi num Yom Kipur que Moshé desceu com as segundas tábuas, o sinal de que o Eterno tinha perdoado o bezerro de ouro. E o quinze de Av, olhe de novo a lista: a sentença do deserto que termina, as tribos que voltam a casar entre si, Benjamim que volta pra mesa, os mortos que finalmente descansam. Seis histórias, um único tema. Coisas partidas voltando ao lugar.
Nos dois dias se vestia branco. Nos dois, o passado deixava de mandar no futuro. A diferença é a linguagem: o Yom Kipur reconcilia pelo jejum, Tu BeAv reconcilia pela festa. A tradição precisou dos dois pra dizer a mesma coisa inteira.
E há o calendário. Seis dias antes, o 9 de Av: Templos destruídos, o dia de sentar no chão. A menos de uma semana da maior tristeza, a maior alegria. Quem montou o calendário assim estava ensinando sem dizer: o luto tem data pra terminar, e o que vem depois dele se constrói com casamento, casa e continuidade. Depois da destruição, a resposta de Israel nunca foi vingança. Foi berço.
De festa esquecida a "Valentine judaico"
Durante séculos, com o povo longe da terra e dos vinhedos, Tu BeAv encolheu até quase sumir. Sobrou um sinal discreto na liturgia: nesse dia não se dizem as súplicas penitenciais. Nenhum jantar, nenhum rito, nenhuma mesa. Uma festa em estado de semente.
Foi em Israel, no último século, que a semente voltou a abrir. Os pioneiros das primeiras aldeias agrícolas, plantando vinhedos de novo, encontraram no calendário uma festa de vinhedos pronta. E o país moderno transformou a data no seu dia do amor: Chag HaAhavá, flores dobrando de preço, restaurantes cheios, pedidos de casamento. No mundo religioso, o dia virou uma espécie de feriado dos encontros: comunidades organizam apresentações e há quem considere a data especialmente boa pra marcar casamento. Dá pra torcer o nariz, e há quem torça: a festa que nasceu com vestidos emprestados pra apagar a diferença entre ricas e pobres reapareceu como data de consumo. A ironia é real. Mas talvez o mais notável seja outra coisa: um povo que passou dois mil anos marcando o amor em calendários emprestados voltou a marcá-lo no seu. O 14 de fevereiro tem um mártir romano na origem; o 15 de Av tem vinhedos, lua cheia e uma guerra entre irmãos que acabou em dança.
O que fazer com um dia desses
Tu BeAv não pede nada. Não tem mitsvá própria, não tem jejum nem banquete, e é isso que o torna tão fácil de perder e tão bonito de achar. A tradição o guarda como quem guarda um bilhete no bolso: um lembrete anual, na lua cheia de Av, de que reconciliar é possível, que tristeza tem prazo e que amor, na conta de Israel, nunca foi só sentimento. É o material de reconstrução mais antigo que existe.
Daqui de Tiberíades, a lua cheia de Av subiu sobre o lago faz uma semana. Os vinhedos da Galileia estão carregados, a vindima à porta. As moças de Jerusalém não dançam mais nos vinhedos, mas o calendário continua repetindo a lição delas todo ano, pra quem quiser ouvir: quando for escolher, não olhe só pra beleza. E quando algo se partir, lembre que até Benjamim voltou pra casa.