Uma vez por ano, o calendário judaico pede uma noite no chão. As luzes baixam, os sapatos de couro ficam na porta e uma comunidade inteira senta como quem perdeu alguém. Tishá BeAv, o nono dia do mês de Av, é o dia mais triste do ano judaico: a data em que os dois Templos de Jerusalém caíram e o ponto mais fundo das Três Semanas de luto que começam no 17 de Tamuz.

As cinco quedas de um mesmo dia

A Mishná guarda uma lista que impressiona pela insistência da data. Cinco desgraças, ela conta, caíram sobre os nossos antepassados no 9 de Av (Mishná Taanit 4:6): o decreto de que a geração do deserto não entraria na Terra de Israel, a destruição do Primeiro Templo, a destruição do Segundo, a queda da cidade de Beitar e o arado passado sobre Jerusalém.

A memória judaica seguiu somando datas a esse dia. A expulsão dos judeus da Espanha, em 1492, costuma entrar na lista, uma coincidência registrada pela tradição, ainda que a cronologia exata seja discutida pelos historiadores. O padrão importa mais que a precisão: pra memória do povo, a dor tem endereço no calendário.

Por que o Segundo Templo caiu

O Talmud faz a pergunta que ninguém queria responder. A geração do Segundo Templo estudava Torá, cumpria mitsvot, praticava atos de bondade. Por que caiu, então? A resposta que ficou é desconfortável até hoje: por sinat chinam, o ódio gratuito entre as pessoas, e esse ódio pesa, sozinho, como as três transgressões mais graves juntas (Talmud, Yoma 9b).

O Segundo Templo não caiu por falta de estudo nem de prática. Caiu pelo que as pessoas sentiam umas pelas outras.

É por isso que o 9 de Av nunca foi só uma aula de história. O dia aponta pra dentro.

Como o dia é vivido

O jejum começa no pôr do sol da véspera e vai até a saída das estrelas do dia seguinte, umas 25 horas sem comida e sem água. À noite, a comunidade se reúne pra ler o livro de Eichá, as Lamentações, sentada no chão ou em bancos baixos, com pouca luz. אֵיכָה, "como", é a primeira palavra do livro: o som de quem chega numa cidade que conheceu cheia e a encontra vazia.

Grande muralha de pedra de Jerusalém à noite, com uma única vela acesa iluminando a base

O costume veste o dia inteiro de luto. Não se usa sapato de couro, não se estuda Torá além dos textos de tristeza, há quem evite até o cumprimento casual. Em muitas comunidades, fica-se sentado baixo até o meio-dia; à tarde o tom começa a subir devagar. E vale o que vale pra todo jejum: quem tem restrição de saúde consulta uma autoridade competente, porque o jejum nunca atropela a vida.

O consolo vem rápido

O calendário não deixa a tristeza sem resposta. O Shabat seguinte ao jejum é o Shabat Nachamu, "consolai", que abre sete semanas de leituras de consolação até Rosh Hashaná. E seis dias depois do 9 de Av chega Tu BeAv, o 15 de Av, sobre o qual a mesma Mishná que listou as tragédias diz: não houve dias tão bons para Israel (Mishná Taanit 4:8).

Há quem ensine que a conta é simples: se um ódio sem razão derrubou a casa, o que levanta é um amor sem razão. O calendário parece concordar. Seis dias depois do jejum mais pesado do ano, ele marca uma dança.

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