Abra qualquer tratado do Talmud, em qualquer edição, e você esbarra numa coisa curiosa logo de cara: a primeira página de texto é a número dois. Não tem página um. Vira a capa e já cai no daf bet, a folha dois. Acontece em quase todos os tratados, e vem sendo assim faz uns quinhentos anos.

A explicação mais simples está na história da impressão. O primeiro Talmud completo impresso saiu em Veneza, entre 1520 e 1523, pelas mãos de Daniel Bomberg, um impressor cristão que enxergou o tamanho da sede judaica por livros. Foi ele quem numerou as folhas e definiu o lugar de cada trecho em cada página, e essa numeração acabou virando padrão. Naquele tempo o livro saía da oficina como uma pilha de folhas soltas, e o dono levava pra encadernar por conta própria. Os números serviam de guia pra quem ia montar o volume na ordem certa. A folha de rosto, com o nome do tratado, contava como folha um. Quando o texto começava mesmo, já era a folha dois.

Foi só isso. Uma decisão de gráfica do século dezesseis que nunca mais mudou. Os impressores seguintes respeitaram a página de Bomberg ao pé da letra, e a edição de Vilna, no século dezenove, deixou o formato do jeito que está nas estantes até hoje. As únicas exceções são três tratados curtos: Midot, Tamid e Kinim. É essa paginação fixa, aliás, que torna possível o Daf Yomi, a folha por dia que junta judeus do mundo inteiro no mesmo trecho, na mesma data.

Mas a tradição raramente deixa um detalhe desses passar sem tirar dele alguma coisa. E essa folha que ficou de fora rendeu leituras bonitas.

As duas leituras da folha que falta

Há quem diga que o Talmud começa no dois pra lembrar o estudante de que ele nunca chega ao um. Por mais que aprenda, por mais fundo que entre, fica faltando uma página atrás, um começo que ele não alcançou. A Torá não tem uma primeira página que alguém possa dominar pra então dizer "pronto, parti do zero, daqui pra frente é comigo". Alguma coisa sempre veio primeiro. O estudo abre no meio do caminho, e abre assim de propósito.

E há quem leia de outro jeito. A página um, que nunca foi pro papel, seria a reverência. O temor e a humildade que vêm antes de qualquer palavra de Torá, e que nenhuma gráfica daria conta de imprimir. Você começa a ler na dois porque a um é o silêncio que se traz pra mesa antes de abrir o livro.

Daqui de Tiberíades, gosto de pensar que as duas leituras chegam no mesmo lugar por caminhos diferentes. Quem estuda de verdade começa sabendo que chegou atrasado, que a conversa já vinha de muito longe dele. E aquela página que falta vira convite: sempre tem o que procurar antes daquilo que a gente toma por começo.

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