Na madrugada da véspera de Yom Kipur, em bairro religioso, ainda escuro, tem gente segurando um galo vivo e girando ele três vezes por cima da cabeça. Em Bnei Brak há fila. Em Jerusalém montam estrutura na rua. A cena incomoda muita gente, e incomoda há setecentos anos.

O que quase ninguém sabe é que o livro que organiza a lei judaica manda parar com isso.

A frase está no lugar mais formal possível

O Shulchan Aruch abre o siman 605 assim:

מה שנוהגים לעשות כפרה בערב יום כפורים לשחוט תרנגול על כל בן זכר ולומר עליו פסוקים — יש למנוע המנהג

O costume de fazer kapará na véspera de Yom Kipur, degolando um galo por cada filho homem e dizendo versículos sobre ele: *deve-se impedir o costume.*

Não é "não é obrigatório". Não é "há quem evite". É yesh limnoa — impeça-se.

A Mishná Berurá, no primeiro comentário do siman, diz o motivo em cinco palavras:

יש למנוע המנהג - משום חשש דרכי האמורי

Por receio de darkei ha'Emori, os caminhos dos emoritas. É a categoria haláchica para prática supersticiosa de fora. A acusação é dura, e quem a fez primeiro não foi um obscuro.

O Rashbá tirou o costume da própria cidade

O Beit Yosef, que é o mesmo autor do Shulchan Aruch trabalhando em modo de pesquisa, cita a responsa do Rashbá em Barcelona, século XIII, e a frase merece ser lida inteira:

מנהג זה פשוט בעירנו אע״פ ששמעתי מפי אנשים הגונים מאשכנז שכל רבני ארצם עושים כן וגם שמעתי שנשאל רבינו האיי ואמר שכן נהגו עכ״ז מנעתי המנהג הזה מעירנו

Este costume é corrente na nossa cidade. Ainda que eu tenha ouvido de homens íntegros da Alemanha que todos os rabinos da terra deles fazem assim, e ainda que eu tenha ouvido que Rabenu Hai Gaon foi perguntado e disse que assim se praticava — mesmo assim, eu impedi este costume na nossa cidade.

Repare no tamanho do que ele está fazendo. O Rashbá sabe que os Geonim chancelaram. Sabe que a Alemanha inteira faz. E tira mesmo assim.

O Beit Yosef ainda acrescenta que o Ramban, mestre do Rashbá, proíbe pela mesma razão:

והרמב״ן אוסרו משום דרכי האמורי

E logo embaixo, na mesma página, o contrário

O Shulchan Aruch é impresso com as glosas do Ramá, e é ali que o mundo asquenazita responde. Direto abaixo da frase que manda impedir:

ויש מהגאונים שכתבו מנהג זה וכן כתבו אותו רבים מן האחרונים וכן נוהגין בכל מדינות אלו ואין לשנות כי הוא מנהג ותיקין

E há dentre os Geonim que escreveram este costume, e assim escreveram muitos dos posteriores, e assim se pratica em todos estes países, *e não se deve mudar, porque é minhag vatikin* — costume dos antigos, dos escrupulosos.

Duas decisões opostas, sobre a mesma prática, na mesma página, impressas juntas para sempre. É isso que o Shulchan Aruch é, e é por isso que ele funciona: ele não esconde a briga.

Volume antigo aberto sobre mesa de madeira escura à luz de vela, com o bloco de texto central e as colunas de comentário em volta

Como o Ramá descreve a coisa

Vale ler o resto da glosa, porque é ali que o costume aparece por inteiro. Galo para homem, galinha para mulher. Para uma grávida, dois — um galo e uma galinha, porque não se sabe o que vem. Escolhem-se aves brancas, por causa do versículo de Yeshayahu: ainda que os vossos pecados sejam como a escarlata, ficarão brancos como a neve.

Dá-se a ave aos pobres, ou resgata-se com o dinheiro que se dá aos pobres. Há lugares onde se vai ao cemitério e se aumenta a tsedacá. E na hora, põe-se a mão sobre a ave:

וסמך ידיו עליו דמות הקרבן

E apoia as mãos sobre ela, à semelhança do sacrifício.

Essa última linha é exatamente o que assustava o outro lado. Pôr a mão sobre um animal e transferir para ele o que era para vir sobre você é o gesto do korban no Templo. Fazer isso num quintal, sem Templo, sem altar, é onde o Ramban e o Rashbá viram o limite.

A virada veio de Tsfat, que é a cidade errada

Aqui a história fica boa. Rabi Yosef Karo escreveu o Shulchan Aruch em *Tsfat*. E foi em Tsfat, na mesma geração, que o Arizal praticou kaparot com todas as letras.

O Maguen Avraham registra assim, no primeiro comentário do siman:

וכ״כ האר״י בכוונות ע״פ הקבלה ושל״ה, האר״י שחטו באשמורת אחר הסליחות כי אז רחמים גוברים

E assim escreveu o Ari nas Kavanot, segundo a Cabalá: degolava na última vigília da madrugada, depois das Selichot, porque então as misericórdias prevalecem.

Não é detalhe técnico. É um endosso do maior cabalista da história judaica, feito na cidade do homem que tinha acabado de mandar impedir o costume.

O efeito foi lento e completo. O mundo sefaradita, que tinha o Shulchan Aruch como código próprio, voltou a fazer kaparot *contra o texto do próprio Shulchan Aruch* — o Ben Ish Chai no Iraque, o Kaf HaChaim, e no século XX o rav Ovadia Yossef. Hoje, em Israel, a fila de madrugada é em boa parte sefaradita. Pela autoridade do Ari, não apesar dela.

O próprio defensor abriu a porta de saída

O melhor da história está no comentário seguinte da Mishná Berurá, e ele está defendendo o costume.

Primeiro ele explica o que a pessoa deve pensar: que tudo o que está sendo feito com aquela ave era o que caberia vir sobre ela mesma, e que pela teshuvá o Santo, bendito seja, retira o decreto. A ave não faz nada. Quem faz é quem está olhando.

E então ele olha para a realidade da madrugada: a aglomeração, as pessoas se empurrando, os shochetim acordados a noite inteira e de cara fechada. E conclui que, nessas condições, é melhor fazer kaparot um ou dois dias antes — *ou trocar por dinheiro dado à tsedacá*, para não se acabar comendo carne que não foi degolada direito.

Quer dizer: o maior defensor asquenazita do costume, no meio da defesa, oferece o envelope como alternativa legítima. O costume se reformou por dentro, sem que ninguém precisasse vencer a discussão.

O que sobra disso tudo

Quem faz kaparot com galo tem o Ramá, os Geonim e o Ari. Quem faz com dinheiro tem o Shulchan Aruch, o Rashbá, o Ramban — e a Mishná Berurá, que é do outro lado e mesmo assim autoriza. Não existe aqui um lado ignorante.

E tem uma coisa que nenhum dos dois lados discute. O Ramá manda dar a ave ao pobre, ou o valor dela. A Mishná Berurá manda pensar que aquilo era para vir sobre você. Os dois gestos sobrevivem à discussão inteira: alguém come, e alguém se olha.

O resto é qual é o teu costume de casa.

Guemar chatimá tová.

Fontes

Shulchan Aruch, Orach Chayim 605:1, com a glosa do Ramá · Mishná Berurá 605:1 e 605:2 · Beit Yosef, Orach Chayim 605, citando a responsa do Rashbá e a posição do Ramban · Maguen Avraham 605:1, citando o Arizal nas Kavanot e o Shelá · Yeshayahu 1:18. Todos conferidos no Sefaria em 14/09/2026. A adoção do costume pelo Ben Ish Chai, pelo Kaf HaChaim e pelo rav Ovadia Yossef está descrita conforme a literatura haláchica corrente, sem citação verbatim dos seus textos.

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