Em 1979, numa escavação numa encosta ao sul da Cidade Velha de Jerusalém, o arqueólogo Gabriel Barkay encontrou dois rolinhos de prata dentro de uma câmara funerária. Eram tão pequenos e frágeis que levaram cerca de três anos para serem desenrolados sem se despedaçar. O que apareceu ali dentro é o trecho bíblico mais antigo que sobreviveu até hoje.

O que estava escrito

Nos dois amuletos, gravadas em escrita paleo-hebraica, estavam palavras da Bênção Sacerdotal, aquela que os kohanim usavam para abençoar o povo: "Que o Eterno te abençoe e te guarde" (Bemidbar 6:24-26). É a mesma bênção que muitas famílias dizem sobre os filhos até hoje, na sexta à noite.

Por que isso é tão raro

Os rolos datam de cerca de 600 antes da era comum, ainda no período do Primeiro Templo. Isso os coloca uns quatrocentos anos antes dos Manuscritos do Mar Morto, que costumam ser lembrados como os textos bíblicos mais antigos. Ketef Hinnom empurra essa marca séculos para trás. É um pedaço físico da tradição, escrito por mãos que viveram antes do exílio na Babilônia.

Os dois amuletos de prata de Ketef Hinnom abertos, mostrando a escrita paleo-hebraica gravada

Um fio que não se rompeu

O detalhe que emociona não é só a idade. É a continuidade. As mesmas palavras que alguém gravou numa lâmina de prata para levar junto ao corpo, há mais de dois mil e seiscentos anos, seguem sendo ditas hoje, quase sem mudança. Nas Três Semanas, quando se lembra o que foi destruído, achados como esse mostram o outro lado: o que atravessou tudo e continua de pé.

Escrevo de Tiberíades sobre Shabat, a parashá e a tradição judaica vivida, em português.

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