Nesta quinta-feira, quando o sol se puser, começa o último mês do ano judaico. Ele se chama Elul, e existe por uma razão bem específica: dar tempo.
Rosh Hashaná cai no dia 12 de setembro. A tradição não pede que a pessoa acorde na véspera e comece a pensar na vida. Ela reserva um mês inteiro antes, e depois ainda mais dez dias, num total de quarenta.
Esse número não é enfeite. Ele vem de uma história.
De onde vêm os quarenta dias
O Pirkei DeRabbi Eliezer, no capítulo 46, conta o que aconteceu depois do bezerro de ouro.
Moshé desce da montanha, encontra o povo em volta do ídolo, quebra as primeiras tábuas. Passa então quarenta dias destruindo o que tinha sido feito ali e tirando aquilo do meio do acampamento. E aí, diz o texto, no primeiro dia de Elul, D'us o chama de volta: sobe até mim, na montanha.
Antes de subir, Moshé manda soar o shofar por todo o acampamento. A razão registrada é prática: para que o povo soubesse onde ele estava e não se perdesse de novo enquanto ele não voltava.
Moshé fica quarenta dias lá em cima. Desce no dia dez de Tishrei, com as segundas tábuas nas mãos.
O dia dez de Tishrei é Yom Kipur.
Então esses quarenta dias que a gente atravessa todo ano, do primeiro de Elul até Yom Kipur, são a repetição anual daquele intervalo. O calendário guardou o período em que um povo que tinha errado feio foi refeito. Não foi apagado o erro. Foram dadas segundas tábuas.
Vale prestar atenção na diferença. As primeiras tábuas foram inteiramente obra divina. As segundas, Moshé teve que talhar com as próprias mãos e levar para cima. O que vem depois do erro exige trabalho de quem errou.
O shofar da manhã
A partir do primeiro dia de Elul, em muitas sinagogas, o shofar volta a ser tocado no fim da reza da manhã. Todos os dias, menos no Shabat, até a véspera de Rosh Hashaná.
O Shulchan Aruch trata dos costumes deste mês em Orach Chaim 581. O texto principal registra o costume de levantar de madrugada para dizer Selichot desde Rosh Chodesh Elul até Yom Kipur, e o Rema, na sua glosa, anota a prática asquenazita de tocar o shofar depois de Shacharit desde Rosh Chodesh.
Quem já ouviu um shofar de perto sabe que o som não é bonito. Ele não acompanha nada, não tem melodia, não combina com o resto da reza. Ele interrompe.
O Rambam explica exatamente por quê. Em Hilchot Teshuvá 3:4, ele escreve que há uma insinuação naquele toque, e a traduz numa frase que ficou:
עוּרוּ יְשֵׁנִים מִשְּׁנַתְכֶם וְנִרְדָּמִים הָקִיצוּ
"Acordem, adormecidos, do seu sono; e vocês que cochilam, despertem."
E ele continua dizendo qual sono é esse. Não é o da cama. É o de quem atravessa o ano inteiro correndo atrás de coisas que não vão durar e não para um minuto para olhar o que está fazendo com os próprios dias.
Um alarme diário, tocado em público, por trinta dias seguidos. É difícil imaginar um mecanismo mais bem desenhado para impedir alguém de chegar em Rosh Hashaná dizendo que não teve tempo de pensar.

As quatro letras do nome
O nome do mês tem quatro letras: אלול.
A tradição lê essas quatro letras como as iniciais de um versículo do Shir HaShirim (6:3):
אֲנִי לְדוֹדִי וְדוֹדִי לִי
Ani leDodi veDodi li — "Eu sou do meu amado, e meu amado é meu."
Repare na ordem das duas metades. Primeiro vem "eu sou do meu amado". Só depois vem "e meu amado é meu".
Essa ordem é a chave de leitura do mês. Elul é o tempo em que a iniciativa cabe à pessoa. Rosh Hashaná e Yom Kipur são dias de se estar diante de um julgamento que já começou; Elul é o mês em que ainda dá para chegar antes, por vontade própria, sem ninguém batendo à porta.
É também, e isso importa, uma linguagem de amor e não de medo. O versículo é de um livro de amor. O mês que antecede o julgamento leva o nome de uma frase que duas pessoas apaixonadas dizem uma para a outra.
O que é teshuvá, na prática
A palavra que organiza esse mês é teshuvá. Ela costuma ser traduzida como arrependimento, e a tradução engana. A raiz é ש־ו־ב, voltar. Teshuvá é retorno.
O Rambam desmonta o conceito em partes concretas. Em Hilchot Teshuvá 2:2, ele escreve que a pessoa abandone o erro, remova aquilo do pensamento, e resolva no coração não repetir. Ele acrescenta o remorso pelo que passou.
Vale ler devagar, porque cada parte pede uma coisa diferente. Abandonar é ação. Remover do pensamento é o trabalho mais difícil, porque envolve deixar de conversar consigo mesmo sobre aquilo. Resolver não repetir é decisão sobre o futuro. E o remorso é o que dá peso ao resto, sem o qual as outras três viram procedimento.
Nada nessa lista é sentimento vago. São quatro operações que uma pessoa pode fazer, ou não fazer, e saber a diferença.
A parte que não depende de D'us
Aqui está o ponto mais duro do mês inteiro, e o mais fácil de adiar.
A Mishná, no tratado Yoma (8:9), estabelece uma divisão:
עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַמָּקוֹם, יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר. עֲבֵרוֹת שֶׁבֵּין אָדָם לַחֲבֵרוֹ, אֵין יוֹם הַכִּפּוּרִים מְכַפֵּר, עַד שֶׁיְּרַצֶּה אֶת חֲבֵרוֹ.
"As transgressões entre a pessoa e D'us, Yom Kipur expia. As transgressões entre a pessoa e seu companheiro, Yom Kipur não expia, até que ela apazigue o seu companheiro."
Leia de novo a segunda metade. O dia mais sagrado do calendário, com jejum de vinte e cinco horas e a reza mais longa do ano, não resolve o que você fez com outra pessoa. Isso fica exatamente onde está até você ir lá e resolver.
É por isso que existe o costume de pedir desculpas às pessoas antes de Yom Kipur. E é por isso que Elul tem trinta dias: porque essas conversas são difíceis, algumas exigem coragem que não aparece de imediato, e uma delas pode levar semanas até você encontrar as palavras.
Quem deixa isso para o dia 20 de setembro descobre que não dá tempo.
Os costumes do mês
O que se faz com Elul depende bastante de onde a sua família veio, e as duas tradições principais organizam o mês de forma diferente.
Nas comunidades sefarditas, as Selichot começam já no primeiro dia de Elul e vão até Yom Kipur. São rezas de pedido, ditas de madrugada, o mês inteiro. É o costume que o Shulchan Aruch registra como prática principal.
Nas asquenazitas, o Rema anota outro arranjo: o shofar toca desde Rosh Chodesh, mas as Selichot só começam no domingo anterior a Rosh Hashaná. Este ano isso cai na noite de sábado, 5 de setembro.
Há ainda o costume de acrescentar o Salmo 27 às rezas do mês, o de mandar revisar as mezuzot e os tefilin por um escriba, e o de escrever e receber votos de ano bom.
Nenhum desses gestos é decorativo. Todos servem à mesma função: transformar uma intenção vaga em algo que ocupa lugar na agenda e tem hora marcada. A tradição desconfia profundamente de boa intenção sem prática, e este mês é a prova disso.
O que cabe em quarenta dias
Você pode não frequentar uma sinagoga que toca shofar de manhã. Pode não ter crescido com Selichot, pode nunca ter ouvido falar do Salmo 27.
O mês continua aí, e o convite dele é concreto: existe um intervalo entre hoje e o dia em que o ano vira. São quarenta dias. Alguma coisa cabe nesse intervalo, e você provavelmente já sabe o que é.
Costuma ser uma conversa adiada. Um pedido de desculpas que ficou pela metade porque a pessoa não reagiu como você esperava. Um hábito que você conhece pelo nome. Uma ligação para alguém que está ficando velho.
A tradição não promete que quarenta dias consertam uma vida. Ela garante uma coisa mais modesta e mais verdadeira: quem chega em Rosh Hashaná tendo usado Elul chega diferente de quem chega direto do dia anterior.
O shofar toca amanhã de manhã em milhares de lugares ao mesmo tempo. Aqui em Tiberíades dá para ouvir da rua, e é um som que não deixa ninguém continuar exatamente no mesmo lugar.
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Fontes citadas: Pirkei DeRabbi Eliezer 46 · Shulchan Aruch, Orach Chaim 581:1, com a glosa do Rema · Rambam, Mishnê Torá, Hilchot Teshuvá 2:2 e 3:4 · Shir HaShirim 6:3 · Mishná Yoma 8:9. Todas verificadas no Sefaria.