Faz uma semana que o shofar voltou a tocar de manhã. Aqui em Tiberíades ele entra no fim da reza, um toque só, e some antes que a maioria tenha dobrado o talit. Já escrevi sobre de onde vem esse costume e sobre por que o chifre é de carneiro. Este texto é sobre outra coisa: sobre o verbo. Porque a tradição, quando quis explicar o que esse som faz com quem escuta, não falou de tremer nem de temer. Falou de acordar.

A frase do Rambam

Está no Mishnê Torá, nas leis da teshuvá. O Rambam começa admitindo que o toque do shofar em Rosh Hashaná é gzerat hakatuv, um decreto da Escritura, quer dizer, uma ordem que não precisa de motivo pra valer. E logo depois diz que, mesmo assim, há nele uma insinuação, um remez. É esta:

Despertai, adormecidos, do vosso sono; e vós que cochilais, levantai do vosso torpor. Examinai os vossos atos, voltai em teshuvá e lembrai-vos do vosso Criador. Vós que esqueceis a verdade nas vaidades do tempo e passais o ano inteiro em vazio e nada, que não aproveita nem salva: olhai para as vossas almas, melhorai os vossos caminhos e as vossas obras, e abandone cada um de vós o seu mau caminho e o seu pensamento que não é bom. (Hilchot Teshuvá 3:4)

Repare no que ele não escreveu. Não escreveu "tremei". Não escreveu "temei o julgamento". A imagem é doméstica: alguém dormindo, e alguém chamando pra acordar. O shofar, nessa leitura, é menos uma sirene do que uma mão no ombro.

O Rambam está falando de Rosh Hashaná, onde o toque é mandamento. O costume de tocar durante Elul é outra coisa, um minhag, e a tradição asquenazita o registra na glosa do Ramá ao Shulchan Aruch: de Rosh Chodesh Elul em diante, o shofar depois da reza da manhã (Orach Chaim 581:1). Mas a explicação que os comentaristas dão pro costume de Elul é irmã da do Rambam. Vamos a ela.

Que sono é esse

Antes, uma pergunta simples: de que sono o Rambam está falando? Ele mesmo responde, na frase seguinte. Os adormecidos são "os que esquecem a verdade nas vaidades do tempo", behavlei hazman, e passam o ano em coisas "que não aproveitam nem salvam". Preguiça não entra na conta; o Rambam está falando de gente ocupada. O sono do Rambam é o de quem está tão dentro do dia a dia que parou de perguntar pra que serve o dia a dia. Trabalho, contas, notícias, a próxima coisa. Um ano inteiro assim passa rápido, e é essa a graça e o perigo dele.

Há um detalhe do hebraico que a tradição gosta de apontar aqui, e ele cabe: shaná, ano, e shená, sono, se escrevem com as mesmas três letras, שנה. Quem lê o Rambam em hebraico vê "passam o ano inteiro" e ouve, atrás, "passam o sono inteiro". Não é etimologia; é coincidência de grafia. Mas é o tipo de coincidência que o texto parece convidar.

O shofar entra nessa rotina como uma coisa que não pertence a ela. Não tem melodia, não tem palavra, não tem explicação na hora. É um som cru, de animal, dentro de uma sala onde tudo o mais é livro e voz humana. E é justamente por não se encaixar que ele acorda.

Um shofar de carneiro sobre uma mesa de madeira, ao lado de um livro de rezas, com o Kineret desfocado ao fundo

Por que um mês antes

Se o Rambam explica o shofar de Rosh Hashaná, quem explica o de Elul é o Tur, o código do século XIV que o Shulchan Aruch veio depois organizar. Ele começa citando um midrash antigo, o Pirkei deRabbi Eliezer: em Rosh Chodesh Elul, D'us disse a Moshé "sobe a Mim, ao monte", e Moshé subiu pra receber as segundas tábuas. E "fizeram passar um shofar pelo acampamento", pra que o povo soubesse que Moshé tinha subido e não errasse de novo atrás de ídolos, como no bezerro (Pirkei deRabbi Eliezer 46). O primeiro shofar de Elul, nessa memória, foi um aviso ao acampamento: ele subiu, está tudo em ordem, não se percam.

Daí o Tur tira a regra: os sábios instituíram que se toque em Rosh Chodesh Elul todo ano, e o mês inteiro, "para advertir Israel a que faça teshuvá". E cita o profeta Amos: im yitaká shofar be'ir ve'am lo yecheradu, "acaso soa um shofar na cidade e o povo não estremece?" (Amos 3:6). Ele acrescenta ainda uma segunda razão, na linguagem da época, "para confundir o Satan", que a tradição posterior repete e discute; fica registrada como o Tur a escreveu.

Repare que as duas fontes dizem coisas parecidas com palavras diferentes. O Rambam fala de acordar; o Tur fala de estremecer, mas o estremecer de Amos é o de uma cidade que ouve o toque e entende que alguma coisa está acontecendo. Nos dois casos o som é só o começo do movimento.

E o mês inteiro, porque um dia não bastaria. A Mishná Berurá, comentando o mesmo trecho, junta os fios: Moshé subiu ao monte em Rosh Chodesh Elul, o shofar passou pelo acampamento, e o costume é tocar toda manhã depois da reza (Mishná Berurá 581:1 e 3). Trinta dias de repetição, sempre no mesmo lugar da manhã, até que o som deixe de ser susto e vire lembrete. Quem se assusta na primeira semana já não se assusta na terceira. Mas também já não consegue dizer que não ouviu.

O que se faz com o susto

Acordar, sozinho, não é nada. A pessoa acorda e volta a dormir. O Rambam sabe disso, e por isso a frase dele não para no "despertai". Ela continua com verbos de trabalho: examinai os vossos atos, olhai para as vossas almas, melhorai os vossos caminhos. O despertar, na leitura dele, é uma inspeção. É a diferença entre ouvir o despertador e levantar da cama.

E logo depois, na mesma halachá, vem uma das imagens mais conhecidas dele: cada pessoa deve se ver, o ano inteiro, como se estivesse meio a meio, metade mérito e metade culpa; e o mundo também. Um ato só pende a balança, pra um lado ou pro outro, "pra si e pro mundo inteiro" (Hilchot Teshuvá 3:4). Serve pra tirar da pessoa a desculpa de que o que ela faz não muda nada.

O Kitzur Shulchan Aruch guarda um costume que traduz isso em gesto: em Elul, "pessoas de ação costumam examinar os seus tefilin e as suas mezuzot, e tudo o que se encontrar precisando de reparo nas demais mitzvot, consertam" (Kitzur Shulchan Aruch 128:3). É a versão prática do "examinai os vossos atos". Antes das grandes contas, ver o que está frouxo em casa. É um costume que não pede sentimento nenhum. Pede que se abra a mezuzá e se leia o pergaminho.

O salmo que acompanha

Muitas comunidades acrescentam, de Rosh Chodesh Elul até o fim das festas, o Salmo 27 à reza da manhã e da noite (Mishná Berurá 581:2). Ele começa com "o Eterno é minha luz e minha salvação, a quem temerei?", e no meio traz um versículo estranho de gramática: lechá amar libi bakshu fanai, et panecha Hashem avakesh, "por Ti disse o meu coração: buscai a Minha face; a Tua face, Eterno, buscarei" (Tehilim 27:8). O coração ouve um convite e responde com o mesmo verbo. Buscar.

É a palavra que faltava. O shofar acorda; o salmo diz o que se faz depois de acordado. E diz também quem chama: a voz que o coração ouve dizendo "buscai a Minha face" é a de alguém que quer ser encontrado, e por isso acorda quem dorme. Depois de acordado, o que se faz é procurar. E o salmo continua, poucos versículos depois, num tom que combina com o mês: "não escondas de mim a Tua face" (27:9), "meu pai e minha mãe me deixaram, e o Eterno me recolherá" (27:10). Quem reza isso todo dia durante trinta dias vai, sem perceber, dizendo em voz alta o que o shofar só insinua.

O que fica

Amanhã de manhã ele toca de novo. Aqui em Tiberíades vai tocar numa sinagoga onde a maioria já sabe a hora e nem levanta a cabeça, e mesmo assim alguém vai ouvir como se fosse a primeira vez, porque é assim que o costume funciona: ele repete pra quem já sabe até acertar quem ainda não sabia. Não é preciso estar em Israel pra isso. Não é preciso nem ter um shofar. Basta saber que ele está tocando, em milhares de lugares ao mesmo tempo, e que a frase que a tradição pôs dentro do som é um chamado pra levantar, olhar em volta e ver o que precisa de conserto.

Faltam três semanas.

Fontes: Rambam, Mishnê Torá, Hilchot Teshuvá 3:4 · Tur, Orach Chaim 581 · Pirkei deRabbi Eliezer 46 · Amos 3:6 · Shulchan Aruch, Orach Chaim 581:1 com a glosa do Ramá · Mishná Berurá 581:1–3 · Kitzur Shulchan Aruch 128:3 · Tehilim 27:1, 27:8–10. Todas verificadas no Sefaria.

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