Você vai escrever 5787 muitas vezes nas próximas semanas. No cartão, na mensagem de Shaná Tová, no cabeçalho de um e-mail. Eu mesmo pus na capa de um calendário.

É um número que a gente trata como fato do mundo, do mesmo jeito que 2026 é fato. Mas as duas contagens foram inventadas por alguém, num século, por um motivo. A de 2026 tem autor conhecido e data de adoção conhecida. A de 5787 também.

Quem sentou e contou

A conta está num livro chamado Seder Olam Rabá, "a ordem do mundo". É do século II, e o Talmud dá o autor: em Yevamot 82b e em Nidá 46b, Rabi Yochanan diz que o tana do Seder Olam foi Rabi Yossi, isto é, Rabi Yossi ben Halafta.

O que o livro faz é cronologia. Ele pega as idades e os reinados espalhados pela Torá e pelos Profetas, soma, e monta uma linha contínua de Adão até a revolta de Bar Kochba, no reinado de Adriano.

Repare onde o livro termina. Rabi Yossi viveu aquela revolta e as perseguições que vieram atrás dela. No último capítulo ele não está datando um passado distante, está datando o desastre que acabou de acontecer com ele.

É dessa soma que sai o ano que você vai escrever.

Mil anos datando por outra coisa

Se o livro é do século II, o natural seria imaginar que dali em diante os judeus passaram a contar 4000 e pouco. Não é o que os documentos mostram.

Durante séculos, o que aparece nos papéis judaicos é outra contagem, chamada minyan shtarot, a contagem dos contratos. Ela começa no outono de 312 AEC, quando Seleuco I volta à Babilônia. É a era selêucida, a contagem de um império grego, e foi ela que os judeus usaram para datar contratos, cartas e lápides durante o Segundo Templo e por muito tempo depois. Em algumas comunidades sobreviveu até a era moderna.

Por um período muito longo, quando um judeu precisava escrever a data num papel que valia dinheiro, ele contou a partir de um rei grego.

O primeiro documento que conta a partir da criação

Os vestígios mais antigos da era da criação são pedaços.

No piso de mosaico da sinagoga de Susiya, no sul da Judeia, sobrou de uma inscrição apenas a palavra "quatro mil". O resto do número se perdeu com o piso.

A Baraita de Shmuel, do fim do século VIII, data um evento astronômico no ano 4536, que dá 776 da era comum.

O primeiro caso claro e inteiro vem de 835 ou 836: uma carta do exilarca, em Bagdá, contando "4595 para a criação".

Depois disso a era vai se espalhando devagar. Até o século X ainda existem documentos que trazem as duas datas ao mesmo tempo, a da criação e a dos contratos, como quem escreve o preço em duas moedas porque não sabe qual delas o outro vai entender.

Guarde o desencontro, porque ele é maior do que parece. A Mishná foi compilada por volta do ano 200. O primeiro documento datado com clareza a partir da criação é de 835. Entre existir a conta e virar costume usar a conta, passaram-se uns seiscentos anos.

Lua nova fina sobre as colinas secas da Galileia ao anoitecer, com duas figuras pequenas de pé na crista olhando para ela

O ano era uma soma. O mês era um olho.

Enquanto o ano se resolvia no papel, o mês se resolvia no céu, e ali não havia o que somar. Alguém precisava ver.

Duas testemunhas iam ao tribunal e diziam ter avistado a lua nova. O tribunal ouvia, examinava, e declarava o mês santificado. A partir daquele instante todas as festas daquele mês tinham data.

O problema é que a notícia precisava chegar.

As fogueiras

A Mishná guardou o sistema inteiro. Rosh Hashaná 2:2 abre assim:

בראשונה היו משיאין משואות

"No começo, acendiam fogueiras."

E a Mishná dá o itinerário, monte por monte, em 2:4. Do Har HaMishcha, o Monte das Oliveiras, para Sartava. De Sartava para Gerofina. De Gerofina para Chavran. De Chavran para Beit Biltin. De Beit Biltin ninguém saía do lugar: acenavam a tocha para frente e para trás, para cima e para baixo, até que a diáspora inteira enxergasse aquilo como uma fogueira só.

Pense no que isso exige. Uma fila de homens em pé no escuro, cada um com o feixe pronto, esperando a luz do anterior aparecer no horizonte para acender a sua. A informação viajando na velocidade da vista.

Os cutim estragaram

משקלקלו הכותים

"Depois que os cutim estragaram."

A mesma Mishná conta o fim do sistema em cinco palavras. Os cutim, os samaritanos, começaram a acender fogueiras nas noites erradas. Foi só isso. Um arranjo que funcionava porque qualquer fogo no monte certo significava uma coisa só deixa de funcionar no dia em que alguém acende um fogo mentiroso.

Trocaram por mensageiros:

התקינו שיהו שלוחין יוצאין

Homens que saíam a pé. A velocidade da vista virou a velocidade da perna, e é dessa troca que sai quase tudo o que vem depois.

As testemunhas que chegaram tarde

Havia também o problema de dentro de casa. Rosh Hashaná 4:4 registra um dia em que as testemunhas demoraram e o tribunal ficou esperando até a hora ficar tarde. Os levitas, sem saber se aquilo tinha virado festa ou continuava dia comum, erraram o canto.

Depois desse episódio limitaram o horário, e o testemunho passou a ser aceito só até a hora da minchá. Quando o Templo caiu, Rabban Yochanan ben Zakkai desfez a limitação e mandou voltar a aceitar testemunho o dia inteiro.

É um detalhe miúdo e ele conta a coisa toda. O calendário era operado por gente, com hora de expediente e erro de canto.

Por isso a festa tem dois dias

Mensageiro a pé não chega a todo lugar a tempo. Quem morava longe sabia que o mês tinha começado, mas não sabia em qual dos dois dias possíveis a festa caía. Guardar os dois resolvia.

Rosh Hashaná é o caso mais apertado de todos, porque cai no primeiro dia do mês. Entre a decisão do tribunal e o começo da festa não existe intervalo nenhum: a festa é a decisão. Nem em Jerusalém dava para ter certeza com folga, e a tradição liga a isso o fato de Rosh Hashaná se guardar em dois dias também dentro de Israel.

O costume dos pais

O calendário acabou virando cálculo. A dúvida sumiu. E o segundo dia ficou.

O motivo está em Beitsá 4b, numa mensagem mandada da Terra de Israel para a diáspora:

הזהרו במנהג אבותיכם בידיכם, זמנין דגזרו המלכות גזרה

"Cuidem do costume dos seus pais, que está na mão de vocês, porque às vezes o governo decreta perseguição."

Eles não estavam pedindo nostalgia. Estavam avisando que o cálculo é uma informação, e que informação se perde quando alguém decide apagá-la. O segundo dia continuou de pé como cópia de segurança de um saber que já tinha sido interrompido antes.

O que sobrou disso na sua mão

Este ano Rosh Hashaná começa na sexta, 11 de setembro, e cai no Shabat. Você vai saber disso porque abriu um aplicativo, ou porque alguém te mandou uma mensagem. Ninguém vai subir num monte com um feixe de palha.

Eu moro em Tiberíades, que é a cidade onde o Sanhedrin acabou se instalando e onde essa engrenagem toda foi sendo trocada por conta. Quando eu conferi os 1.620 horários de acender velas do calendário 5787 contra o Hebcal, um por um, o que eu estava fazendo era a versão sem graça e sem fogo do mesmo serviço: garantir que a informação chegasse certa em quem precisa dela.

A diferença é que agora ela cabe no bolso, e fica fácil esquecer que cada pedaço dela teve que ser inventado por alguém.

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