Todo verão, o calendário judaico entra num corredor estreito. São três semanas em que a alegria vai sendo recolhida aos poucos, até chegar ao dia mais triste do ano. Começa num jejum, o 17 de Tamuz, e termina noutro, o 9 de Av. No meio, um tempo que a tradição trata como luto. A própria expressão que dá nome ao período carrega essa sensação de aperto: Bein HaMetzarim, "entre os estreitos".

De onde vem o nome "entre os estreitos"

A imagem vem de um versículo de Eicha, o livro das Lamentações. Falando da queda de Jerusalém, o texto diz que todos os que a perseguiam a alcançaram bein hametzarim, entre os estreitos (Eicha 1:3). É a figura de quem foi encurralado num lugar sem saída. Foi o Midrash que ligou essa expressão ao calendário, lendo "entre os estreitos" como os dias que vão do 17 de Tamuz ao 9 de Av (Eicha Rabá 1:29). É a fonte mais antiga que trata esses vinte e um dias como um período próprio.

בין המצרים

O que a tradição lembra no 17 de Tamuz

O jejum que abre as Três Semanas não está ligado a um único acontecimento. A Mishná reúne cinco coisas que, segundo a tradição, caíram nesse dia (Taanit 4:6). As tábuas da Lei foram quebradas por Moshé diante do bezerro de ouro. A oferenda diária do Templo, o tamid, cessou. As muralhas de Jerusalém foram rompidas. Um general chamado Apostomos queimou um rolo da Torá. E um ídolo foi colocado dentro do Santuário. O Talmud observa que a brecha do Primeiro Templo foi no 9 de Tamuz, e a do Segundo no 17, e foi essa data que ficou como o jejum (Taanit 28b).

Uma vela baixa acesa ao lado de um livro antigo fechado sobre pedra desgastada, com um leve fio de fumaça

O luto que aperta aos poucos

As Três Semanas não têm um peso uniforme. No começo, o costume é não celebrar casamentos, não ouvir música e não cortar o cabelo. A virada mais forte chega com o mês de Av. "Quando entra Av, diminui-se a alegria", ensina a Mishná (Taanit 4:6). São os Nove Dias, do primeiro de Av até o 9, quando o costume aperta e há quem deixe de comer carne e beber vinho, fora do Shabat.

O estreito é uma passagem, não um fim.

Por que guardar uma perda tão antiga

A tradição não pede que se reviva a dor como se ela fosse de hoje. Propõe algo mais simples: reservar um tempo no ano para olhar de frente o que foi perdido. E o corredor não termina no escuro. Seis dias depois do 9 de Av vem Tu BeAv, um dia de alegria, e logo se abrem sete semanas de consolo até Rosh Hashaná. O estreito é uma passagem, não um fim.

Escrevo de Tiberíades sobre Shabat, a parashá e a tradição judaica vivida, em português.

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