Hoje é feriado no Brasil. Aqui em Tiberíades é uma segunda-feira comum, com ônibus, banco aberto e o lago do mesmo jeito de sempre. Mas eu sou brasileiro, e o 7 de Setembro caiu, este ano, na mesma semana em que Rosh Hashaná entra. Fiquei com as duas coisas na cabeça ao mesmo tempo, e este texto é o que saiu.

Independência é uma palavra que o hebraico demorou a ter. A que se usa hoje, atzmaut (עצמאות), vem de etzem, osso, o que sustenta por dentro. É palavra moderna, e batiza o documento que Ben-Gurion leu em 5 de Iyar de 5708, 14 de maio de 1948: Megilat HaAtzmaut, o rolo da independência. Antes dela, a Torá e os sábios falavam de liberdade com outras três palavras, e cada uma diz uma coisa diferente.

Três palavras

A primeira é chofesh (חופש). Em Israel, hoje, é a palavra das férias. Chofesh hagadol é o recesso de verão das crianças. É a liberdade de não ter obrigação, o descanso, o intervalo. Boa palavra, mas pequena: ninguém constrói um país com ela.

A segunda é cherut (חירות). É a palavra de Pessach. Na liturgia da festa, a noite se chama zman cheruteinu, o tempo da nossa liberdade. E os sábios fizeram com ela um jogo de palavras que eu acho um dos mais bonitos do Talmud. A Torá diz que as tábuas eram obra de D'us e que a escrita estava charut, gravada, sobre as tábuas (Shemot 32:16). Pirkei Avot 6:2 manda ler de outro jeito:

אַל תִּקְרָא חָרוּת אֶלָּא חֵרוּת, שֶׁאֵין לְךָ בֶן חוֹרִין אֶלָּא מִי שֶׁעוֹסֵק בְּתַלְמוּד תּוֹרָה

"Não leia charut, gravado, e sim cherut, liberdade. Porque só é livre quem se ocupa do estudo da Torá." (Pirkei Avot 6:2)

Gravado e livre, com as mesmas letras. Para a tradição, a lei escrita na pedra é o que liberta, e não o que prende. Isso já aparece muito antes, no primeiro pedido que Moshé leva ao faraó. A frase que a gente conhece é "deixa o meu povo ir". A frase inteira é outra: shalach et ami veya'avduni, "envia o meu povo, para que Me sirva" (Shemot 7:16). A liberdade do Egito tem destino. Ela sai da casa de escravos para entrar num compromisso.

A terceira palavra é a mais antiga, e é a que me interessa nesta semana.

Dror

Dror (דרור) aparece na Torá num contexto preciso. É o ano do Yovel, o jubileu, o quinquagésimo ano, quando as terras voltam aos donos originais e os servos voltam para casa. E o Yovel não começa em Rosh Hashaná. Começa em Yom Kipur, com um som:

וְהַעֲבַרְתָּ שׁוֹפַר תְּרוּעָה בַּחֹדֶשׁ הַשְּׁבִעִי בֶּעָשׂוֹר לַחֹדֶשׁ בְּיוֹם הַכִּפֻּרִים תַּעֲבִירוּ שׁוֹפָר בְּכָל אַרְצְכֶם

"E farás passar um shofar de toque no sétimo mês, no décimo dia do mês; no Dia da Expiação fareis passar o shofar por toda a vossa terra." (Vayikrá 25:9)

E no versículo seguinte vem a palavra:

וּקְרָאתֶם דְּרוֹר בָּאָרֶץ לְכָל יֹשְׁבֶיהָ

"E proclamareis liberdade na terra, a todos os seus habitantes." (Vayikrá 25:10)

O Talmud pergunta o que dror quer dizer, e Rabi Yehuda responde com uma imagem: é "como quem mora numa hospedaria e leva mercadoria a qualquer província" (Rosh Hashaná 9b). Rashi resume: alguém que mora onde quer, e não está sob a autoridade de outro. Dror também é o nome de um pássaro pequeno, o que faz ninho em qualquer lugar. Está no salmo 84: "até o pássaro achou casa, e o dror, um ninho para si".

Um pardal no ninho, numa fresta do muro de pedra de Jerusalém, ao fim da tarde

Então a liberdade mais antiga da Torá é isso: poder morar onde se quer. E ela não é declarada num papel. É proclamada com um shofar, no dia mais solene do ano.

O sino e o shofar

Esse versículo atravessou o mundo. Em 1752, a Assembleia da Pensilvânia encomendou um sino para a sua sede, e mandou fundir nele uma frase: Proclaim liberty throughout all the land unto all the inhabitants thereof, com a referência ao lado, Levítico 25:10. O sino ficou conhecido como Liberty Bell, e virou o símbolo da independência americana. A frase é a de Vayikrá, a do Yovel, a que sai de um shofar.

Eu gosto de lembrar disso porque a gente costuma pensar em independência como uma data, uma assinatura, um grito à beira de um riacho. A Torá pensa nela como um som que corre a terra inteira e chega a todos os que moram nela. Sem exceção de quem.

Quantas vezes Israel foi independente

Se a palavra é moderna, a coisa é antiga. O povo de Israel já foi dono do próprio destino mais de uma vez, e perdeu isso mais de uma vez. Vale contar rápido, porque o 7 de Setembro brasileiro tem só uma data, e a história judaica tem várias.

A primeira não aconteceu numa terra. Aconteceu no deserto. No Sinai, antes de qualquer fronteira, D'us diz a um bando de ex-escravos o que eles vão ser:

וְאַתֶּם תִּהְיוּ־לִי מַמְלֶכֶת כֹּהֲנִים וְגוֹי קָדוֹשׁ

"E vós sereis para Mim um reino de sacerdotes e uma nação santa." (Shemot 19:6)

A palavra ali é goy, nação. Israel virou nação com uma lei, e só depois com um território. Por isso a tradição conta o nascimento do povo a partir do Sinai, e não a partir da conquista.

A terra veio com Yehoshua. Depois dele, uns dois séculos de juízes, que o livro de Shoftim resume numa frase que parece crítica e é, também, um retrato de gente que não respondia a ninguém de fora:

בַּיָּמִים הָהֵם אֵין מֶלֶךְ בְּיִשְׂרָאֵל אִישׁ הַיָּשָׁר בְּעֵינָיו יַעֲשֶׂה

"Naqueles dias não havia rei em Israel; cada um fazia o que era reto aos seus olhos." (Shoftim 21:25)

Depois veio a monarquia: Shaul, David, Shlomo, o Templo. O reino se dividiu logo depois de Shlomo, o norte caiu para a Assíria em 722 antes da era comum, e Yehudá caiu para a Babilônia em 586, com o Templo queimado. Ali termina a primeira independência. Os que voltaram da Babilônia com a permissão de Ciro construíram o Segundo Templo, mas viveram sob a Pérsia e depois sob os gregos. Autonomia, não soberania.

A soberania voltou pelas mãos dos Hasmoneus. A revolta dos Macabeus começou em 167 antes da era comum, o Templo foi rededicado em 164 (é o Chanucá), e a independência plena veio em 142, quando os selêucidas abriram mão do tributo. O primeiro livro dos Macabeus, que ficou fora da Bíblia hebraica mas guarda a história, registra o momento com uma frase que soa como uma declaração: "no ano 170, o jugo dos gentios foi removido de Israel, e o povo começou a escrever nos seus documentos e contratos: no ano um de Shimon, sumo sacerdote e líder dos judeus" (1 Macabeus 13:41–42). Datar contrato pelo ano do próprio governante é o gesto mais concreto de independência que existe.

Durou oitenta anos. Em 63 antes da era comum, Pompeu entrou em Jerusalém, e dali em diante foi Roma. O Templo caiu em 70. Sessenta anos depois, Bar Kochba levantou a última revolta, e as moedas que ele cunhou dizem, em letras hebraicas antigas, lecherut Israel, "pela liberdade de Israel", com a mesma palavra cherut das tábuas. Em 135 acabou. E foram quase dois mil anos sem um Estado, até aquela sexta-feira de 5 de Iyar de 5708, em Tel Aviv.

O Brasil nessa história

Agora o outro lado. O 7 de Setembro que o Brasil comemora hoje é de 1822, e o caminho até ele começou quando a corte portuguesa fugiu de Napoleão e desembarcou no Rio de Janeiro, em 1808. Por treze anos o Brasil foi a sede do império português. Em 1821, D. João VI voltou para Lisboa e deixou o filho como príncipe regente. As Cortes de Lisboa queriam desfazer isso tudo e devolver o Brasil à condição de colônia, e chamaram o príncipe de volta. Em 9 de janeiro de 1822 ele respondeu que ficava. É o Dia do Fico. Em 7 de setembro, às margens do riacho do Ipiranga, em São Paulo, D. Pedro leu as últimas ordens de Lisboa e deu o grito: "Independência ou Morte". Foi aclamado imperador em 12 de outubro e coroado em 1º de dezembro, D. Pedro I.

Não foi tão limpo quanto o quadro do Ipiranga. Na Bahia, as tropas portuguesas só saíram em julho de 1823, e Portugal só reconheceu a independência em 1825, num tratado assinado em 29 de agosto, com o Brasil pagando dois milhões de libras pelo reconhecimento. Mas o país saiu inteiro, uma nação só do Oiapoque ao Chuí, enquanto a América espanhola virava um mapa de repúblicas. Para o brasileiro, o 7 de Setembro é o desfile de manhã, a bandeira na janela, o hino cuja música o próprio D. Pedro compôs, e uma ideia simples: a gente decide por aqui.

O Brasil aparece na história de Israel em dois momentos que eu carrego com orgulho, e que pouca gente do lado de lá conhece.

O primeiro é antigo. Entre 1636 e 1654, no Recife holandês, funcionou a Kahal Zur Israel, na então Rua dos Judeus, hoje Rua do Bom Jesus. Foi a primeira sinagoga oficial das Américas, com cerca de 180 chefes de família. Quando os holandeses foram expulsos, em 1654, a sinagoga fechou e a prática judaica voltou a ser proibida. O prédio está lá, no Bairro do Recife, e dá para visitar.

O segundo é de 1947. Quem presidia a Assembleia Geral das Nações Unidas na sessão de 29 de novembro, quando se votou a partilha da Palestina e o caminho para um Estado judeu, era um brasileiro, Oswaldo Aranha. Ele adiou a votação por alguns dias para garantir o resultado. Israel não esqueceu: há uma praça com o nome dele em Jerusalém, no bairro de Mamila, a poucos passos da Cidade Velha, com uma placa em hebraico e em português dedicada ao povo brasileiro. E há ruas com o nome dele em Tel Aviv, Beer Sheva e Ramat Gan.

Um brasileiro que mora em Israel passa por essa praça e lê o próprio idioma numa placa de pedra. É uma sensação difícil de explicar para quem nunca teve dois países.

De volta à sexta

Rosh Hashaná entra no pôr do sol de sexta, 11 de setembro. Este ano o primeiro dia cai no Shabat, e o shofar só toca no domingo. Quando ele tocar, vale lembrar de onde a Guemará tira o toque de Rosh Hashaná: do shofar do Yovel. Os sábios (Rosh Hashaná 33b–34a) aprendem os sons de um pelo outro, porque a Torá usa a mesma palavra, teruá, nos dois lugares.

Ou seja: o som que a gente vai ouvir no domingo é, na origem, o som de dror. O som que proclama que cada um pode voltar para a sua casa e para a sua família. Independência, no vocabulário da Torá, soa assim.

Shaná tová. E feliz Dia da Independência, Brasil.

Fontes: Shemot 7:16 · Shemot 19:6 · Shemot 32:16 · Vayikrá 25:9–10 · Shoftim 21:25 · Tehilim 84:4 · Pirkei Avot 6:2 · Talmud Bavli, Rosh Hashaná 9b e 33b–34a · Rashi a Vayikrá 25:10 · 1 Macabeus 13:41–42. Sobre as moedas de Bar Kochba: Museu de Israel. Sobre a Liberty Bell: Museum of the Bible e Independence National Historical Park. Sobre a Kahal Zur Israel: Fundação Joaquim Nabuco. Sobre Oswaldo Aranha: Agência Brasil. Sobre 1822–1825: Arquivo Nacional e Museu do Ipiranga.

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