Esta semana o mercado de Tiberíades muda de cara. A romã aparece empilhada na entrada das bancas, o mel vem em pote de vidro em toda parte, e nas peixarias tem gente reservando cabeça de peixe por telefone. Quem passa por aqui e não sabe o que está acontecendo pensa que é só a véspera de uma festa grande. É, mas tem uma coisa a mais: quase tudo o que vai para a mesa na primeira noite de Rosh Hashaná está ali por causa de um trocadilho.
No Brasil, a parte que sobreviveu foi a maçã no mel. Ela é linda e é verdadeira, mas é o fim de uma lista bem maior, e a lista tem uma origem que vale conhecer, porque o lugar onde ela foi guardada no Talmud diz muito sobre para que ela serve.
O que o Talmud estava discutindo antes de chegar à mesa
A frase que dá origem a essa mesa está no tratado Horayot, e ela não chega sozinha. Vem no fim de uma sequência sobre sinais.
O trecho começa com uma regra de coroação. Os reis de Israel são ungidos junto a uma nascente, para que o reinado deles corra adiante como a água corre. A prova é o dia em que David manda ungir Shlomo e ordena que o desçam até o Guichon, a fonte de Jerusalém (Melachim I 1:33).
Depois vêm três sinais caseiros, e eles são bem menos solenes. Rabi Ami diz que quem quiser saber se vai atravessar o ano acenda uma lamparina, nos dez dias entre Rosh Hashaná e Yom Kipur, numa casa onde não bata vento: se a chama durar, o ano dura. Quem quiser saber se um negócio vai dar certo que crie um galo, e se o bicho engordar bonito o negócio vai bem. E quem estiver de viagem marcada e quiser saber se volta para casa que fique numa casa escura e procure a sombra da própria sombra.
Nesse último o Talmud interrompe e diz que não se faz:
וְלָאו מִלְּתָא הִיא, דִּלְמָא חָלְשָׁא דַּעְתֵּיהּ וּמִתְרַע מַזָּלֵיהּ
"E isso não é coisa que se faça, porque talvez ele se abata, e a sorte dele piore." (Horayot 12a)
Repare no motivo. Não é que o sinal seja falso. É que a pessoa pode não aguentar a resposta, e o desânimo dela é que estraga o ano. O Talmud tira o sinal da mão de quem pode se machucar com ele.

E é logo depois disso, com essa ressalva no ar, que vem Abaye:
אָמַר אַבַּיֵי: הַשְׁתָּא דְּאָמְרַתְּ סִימָנָא מִלְּתָא הִיא, לְעוֹלָם יְהֵא רָגִיל לְמִיחְזֵי בְּרֵישׁ שַׁתָּא קָרָא וְרוּבְיָא כְּרָתֵי וְסִילְקָא וְתַמְרֵי
"Disse Abaye: já que você disse que sinal é coisa que tem peso, que a pessoa se acostume sempre a ver, no começo do ano, abóbora e feijão, alho-poró e acelga e tâmaras." (Horayot 12a)
A mesa inteira de Rosh Hashaná sai daí. De uma frase que começa com "já que", encaixada no fim de uma discussão que acabou de proibir um sinal por medo de abater quem o consultasse.
Ver ou comer
A mesma frase de Abaye aparece em outro tratado, e uma palavra muda. Em Horayot ele diz lemichzei, ver. Em Keritot ele diz lemichal, comer (Keritot 6a).
É uma diferença de uma letra e ela organizou duas maneiras de fazer. Onde se seguiu o "ver", basta que os alimentos estejam na mesa, à vista, e a pessoa olhe para eles. Onde se seguiu o "comer", cada um é provado, e antes de provar se diz um pedido.
O Shulchan Aruch decide pelo comer, e traz a lista com o pedido de cada item (Orach Chayim 583:1).
Os cinco da lista
Os nomes na lista de Abaye estão em aramaico, e é do aramaico que sai a piada. Cada alimento soa como o verbo do pedido que se faz em cima dele.
*Rubia. O Shulchan Aruch explica o que é: tiltan*, feno-grego. Sobre ela se diz:
יְהִי רָצוֹן שֶׁיִּרְבּוּ זְכֻיּוֹתֵינוּ
"Que sejam muitos os nossos méritos."
Rubia e yirbu, multiplicar, têm a mesma raiz no ouvido. Em boa parte do mundo judaico o feno-grego sumiu da cozinha e o lugar dele na bandeja foi ocupado pelo feijão-fradinho, que em hebraico se chama lubia. Um som quase igual ao da palavra do Talmud, e foi por aí que a troca entrou. Ela está consolidada há muito tempo; vale só saber que a lista original dizia outra coisa.
*Karti*, o alho-poró:
יִכָּרְתוּ שׂוֹנְאֵינוּ
"Que sejam cortados os que nos odeiam."
*Silka*, a acelga (em muitas casas, a beterraba):
יִסְתַּלְּקוּ אוֹיְבֵינוּ
"Que se afastem os nossos inimigos."
*Tamri*, as tâmaras:
יִתַּמּוּ שׂוֹנְאֵינוּ
"Que cheguem ao fim os que nos odeiam."
*Kará*, a abóbora. Essa tem duas de uma vez, porque o nome dela puxa dois verbos parecidos:
יִקָּרַע גְּזַר דִּינֵנוּ וְיִקָּרְאוּ לְפָנֶיךָ זְכֻיּוֹתֵינוּ
"Que se rasgue a sentença contra nós, e que sejam lidos diante de Ti os nossos méritos."
Rasgar e ler, com as mesmas consoantes. É o pedido mais ousado da mesa: que o documento do julgamento seja rasgado, e que no lugar dele se leia outra coisa.
Três dos cinco pedidos são sobre inimigos, o que costuma surpreender quem chega à mesa esperando doçura. A mesa de Rosh Hashaná não é só mel.
A maçã, a romã e a carne gorda
A lista do Talmud tem cinco itens e nenhum deles é maçã. O que a gente conhece no Brasil entrou depois, e o Ramá anota isso na margem do Shulchan Aruch, no mesmo lugar.
Ele registra que há quem coma maçã doce no mel, e cita o Tur; e que se diz sobre ela titchadesh aleinu shaná metuká, que se renove sobre nós um ano doce, citando o Abudraham. Anota também que há quem coma romãs dizendo "que os nossos méritos se multipliquem como a romã", e que se costuma comer carne gorda e todo tipo de doce, citando o Mordechai (Ramá, Orach Chayim 583:1).
Ou seja: a maçã no mel, que virou a imagem da festa inteira, é o item mais recente da bandeja e entrou por costume, não pela lista de Abaye. Isso não a torna menor. Só coloca cada coisa no seu lugar.
A cabeça
O item mais antigo da mesa, junto com os cinco, é uma cabeça.
אוֹכְלִים רֹאשׁ כֶּבֶשׂ לוֹמַר נִהְיֶה לְרֹאשׁ וְלֹא לְזָנָב, וְזֵכֶר לְאֵילוֹ שֶׁל יִצְחָק
"Come-se cabeça de carneiro, para dizer: sejamos cabeça e não cauda; e como lembrança do carneiro de Yitzchak." (Orach Chayim 583:2)
Dois motivos numa frase só. O primeiro é o trocadilho de sempre: cabeça de ano, cabeça e não cauda. O segundo não é trocadilho nenhum, é memória: o carneiro que apareceu preso pelos chifres no lugar de Yitzchak, que é a leitura da Torá do segundo dia da festa.
A Mishná Berurá acrescenta duas coisas práticas. Melhor ainda que cabeça de ovelha é a de carneiro, pelo mesmo motivo do Yitzchak. E quem não tiver cabeça de carneiro que use a cabeça de outro animal, ou de uma ave (Mishná Berurá 583:6–7). É essa licença que abre espaço para o que mais se vê hoje nas casas, que é a cabeça de peixe.
O que se evita
Há também um lado negativo da mesa, e ele é curto.
O Ramá anota que há quem tenha o cuidado de não comer nozes, por duas razões: egoz, noz, tem o mesmo valor numérico de chet, falta; e noz aumenta a saliva e atrapalha quem está rezando (Ramá, Orach Chayim 583:2).
E a Mishná Berurá anota que, já que se pede um ano doce, há quem evite cozinhar coisas com vinagre; e que quem come peixe pelo sinal de multiplicar não o prepara em vinagre (Mishná Berurá 583:5).
Quando se diz o pedido
Esse detalhe quase todo mundo erra, e ele está anotado com clareza.
O pedido não vem antes de comer. Vem depois de já ter começado a comer, porque não se interrompe entre a bênção e o alimento (Mishná Berurá 583:4). Faz-se a bênção, prova-se, e só então se diz o yehi ratzon.
Como montar isso no Brasil
Sem nenhum ingrediente difícil, dá para ter a bandeja inteira:
Abóbora ou moranga para o kará. Feijão-fradinho para a rubia, com a ressalva de que a lista original falava em feno-grego. Alho-poró para o karti. Acelga ou beterraba para a silka. Tâmaras para os tamri. Romã e maçã com mel, que entraram pelo Ramá. E uma cabeça, que pode ser de peixe ou de frango pela licença da Mishná Berurá.
A ordem que se usa em muitas casas é começar pela maçã no mel, depois os cinco da lista, e a cabeça no fim. Cada casa tem a sua, e a diferença entre elas não é discussão de lei, é hábito de família.
Neste ano vale lembrar de uma coisa de calendário: o primeiro dia de Rosh Hashaná cai no Shabat, dia 12, e o segundo no domingo, dia 13. Quem cozinha precisa se organizar para a entrada da festa na sexta.
Para que serve tudo isso
Volto ao começo, porque a resposta está lá.
O Talmud proibiu um sinal, a sombra da própria sombra, com um motivo psicológico: a pessoa pode se abater, e o abatimento dela é que estraga o ano. Alguns séculos depois, comentando exatamente essa mesa, a Mishná Berurá fecha o assunto com uma frase que rima com aquela. Ela diz que, já que todas essas coisas se fazem por bom sinal, é óbvio que a pessoa deve tomar muito cuidado para não se irritar nestes dias, além da gravidade da proibição em si, para que isso lhe seja bom sinal; que ela esteja de coração alegre e confiante (Mishná Berurá 583:5).
Aí está o assunto inteiro. A bandeja não existe para adivinhar o que vem. Ela existe para colocar na boca de quem está à mesa, na primeira noite do ano, uma sequência de frases que dizem que a sentença pode ser rasgada e que os méritos podem ser lidos. E a instrução que acompanha a bandeja não é sobre a abóbora. É sobre não descontar em ninguém no dia em que se pede um ano bom.
Shaná tová, e ketivá vachatimá tová.
Fontes: Talmud Bavli, Horayot 12a e Keritot 6a · Melachim I 1:33 · Shulchan Aruch, Orach Chayim 583:1–2, com as glosas do Ramá (citando o Tur, o Abudraham, o Mordechai e o Maharil) · Mishná Berurá 583:4, 583:5, 583:6 e 583:7. Todas conferidas no Sefaria em 07/09/2026. A identificação da rubia como feno-grego é do próprio Shulchan Aruch; o uso do feijão-fradinho é costume posterior. A cabeça de peixe não aparece nas fontes citadas: ela entra pela licença da Mishná Berurá 583:7, que permite a cabeça de outro animal ou de uma ave.